
um grande erro ao nos debruçarmos sobre a pesquisa de moda, mas que pode ser aplicado a demais campos de estudo sociais, é analisar pelo viés histórico sem compreender que não existe uma linearidade e, que, para se entender profundamente como a moda se inscreve nas sociedades, é necessária uma análise filosófica do comportamento do humano em detrimento do vestuário. porque, se considerarmos que a moda é a representação material efêmera de costumes, tradições, modos de agir e de pensar que marcam períodos históricos-culturais e, quem cria essas vestimentas, o artesão, o designer, apresenta uma artisticidade que transita quase que sem distinção com a sua existência.
isto é, a existência é uma estética, um processo de manifestação artística é também a própria obra de arte, o corpo, a vida e os modos de existir. de questionar o porque da vida dos artífices não serem consideradas obras de arte. a mescla quase indissociável disto ocorreu de forma bastante significativa e clara em dois momentos da história: na idade clássica e no movimento modernista brasileiro.
na grécia, os modos de vida estavam intimamente vinculados às escolas filosóficas e, adentrando novamente no campo da moda, vale destacar o khíton, uma peça de roupa que consistia em uma túnica que homens e mulheres usavam, com um o formato interessantíssimo, amplo e leve ao mesmo tempo que moldava e definia o corpo, e marcou aquele período histórico.

era um período que pode ser pensado com base no que friedrich schiller, diz sobre a educação pelo viés sensível. no qual, a existência/os modos de vida estão integrados com a arte e com o ensino, para que seja possível uma educação plena da razão e sensação. que foi retomado pelos modernistas, que buscavam essa mescla entre arte-vida, esse desejo de materializar um manifesto de tudo aquilo que lhes era ausente. uma vez que, todas as escolas artísticas eram modernas ao seu tempo, todas iam de encontro com o movimento passado, todos almejam essa quebra com o passado, com essa emancipação do que já está marcado como comum aos olhos da sociedade.
então, podemos pensar nesses momentos de estranhamento que a arte (ou outros tipos de manifestações culturais) pode causar ao se inscrever no tecido social. uma vez que, a imagem sensível de transgressão e rebelia é formada quando se tem contato com um algo desconhecido (arte/artista) e se cria um questionamento, não se compreende, há um desejo de estudar, de buscar entender e, é esse instante entre o não saber e a vontade de conhecer para que se pode transmutar conhecimentos, que marca o conceito moderno que apresenta a novidade como categoria de juízo de valor estético. em resumo, tudo que é novo é mais interessante e transgressor, mas se a cada época há o surgimento de algo moderno nas artes e a ultrapassagem do que existia anteriormente, o ciclo é vicioso, elementos de períodos passados são retomados, relidos, reescritos e reinterpretados em novos contextos socioculturais.
por exemplo, na época do pós revolução francesa, houveram apenas uns poucos anos em que as mulheres usavam vestimentas mais livres, em contrapartida com do período de maria antonieta, e esse período já foi no final do reinado desta, onde, devido ao fato dos animos estarem se encaminhando pessimamente para o reinado, e em busca de se afastar dessas questões, ela volta seu olhar para a maternidade e troca o palácio de versailles por um no campo, e passa a adotar vestidos mais simples e soltos, inspirados nos das camponesas. estas, por sua vez, (em um primeiro momento refutam as influências) passam a adotar esse vestuário, numa cadeia retroativa, no qual quem detém o poder se inspira no camponês e este, em busca de validação social, se inspira no burguês, sempre alimentando essa hierarquia social que a moda expressa tão bem e que podemos ver até hoje, como irei analisar mais adiante.
então, no pós revolução francesa, as mulheres puderam ter uma liberdade maior em relação ao vestuário. estas, com tecidos mais leves, modelagem e cortes mais amplos que permitiam o deslocamento de forma mais prática, etc, inclusive, esse modelo é similar ao khíton grego. contudo, logo depois na república, as mulheres passaram a usar chapéus que impediam suas visões periféricas de tão grandes exagerados, a cintura marcada retornou e os quadris falsos também. mostrando assim, como a moda está não apenas diretamente ligada com os acontecimentos político-sociais, ela faz parte ajudando a criar essa mensagem ou indo contra, mas na maioria das vezes a moda que estudamos é aquela que expressa os valores da cultura dominante das épocas.

uma outra questão que gostaria de levantar, que também trata sobre o desejo da quebra com o passado, o estranhamento filosofico e social, e os ideias modernos, é as representações do sexo e do desejo feminino pelas roupas. o khíton, para mim, é um exemplo de vestuário que põe fim o binarismo de gênero. essa túnica que durante todo seu período de utilização greco-romana não apresentou alterações, se manteve nos tecidos leves, cobria mas moldava o corpo, etc. tanto é, que segundo exemplos de brunno almeida maia, meu professor de moda e filosofia de quando fiz o curso “o corpo utópico: relações entre moda, gêneros e sexualidades” da MASP Escola, trouxe:
o khíton é retomado pelos costureiros modernistas do século XX com madeleine vionnet, que, realizou atualizações e mariano fortuny e os vestidos de delphos, com sua técnica de drapeado em seda.
nesse período do pós-revolução, é que a moda que conhecemos começou ser formada. e do que se trata os pilares dessa moda? menos de ludus, exagero e maximalismo e, papéis de gênero bem definidos. e por muito tempo se manteve assim, as vestimentas destinadas às mulheres sofriam inúmeras alterações ao longo das décadas, ao passo que, a dos homens, permanência quase inalterada. me lembrou a história de pigmaleão, que se apaixona pela estátua que ele cria. as mulheres como os manequins e bonecas dos homens. remexidas e retocadas, incessantemente, em busca da promessa do corpo perfeito para o deleite do homem, da roupa perfeita e que mais valoriza o que os homens desejam, como tática de controle social das vontades das mulheres.

contudo, com os modernistas isso foi alterado, como já apontado, mas gostaria de trazer dois exemplos emblemáticos. marcel duchamp e elsa schiaparelli. duchamp, realizou o seu fazer artístico, por meio de artefatos/objetos quaisquer, no qual, ele analisava com atenção essas materializações do dia-a-dia, os retirava desse seu local de origem, colocava em outro e assim, alterava o que este simbolizava. o objeto poderia continuar igual, mas sua linguagem era outra, logo, era um outro artefato. comunicava algo totalmente diferente.
e schiaparelli, era amiga pessoal de duchamp, no qual ambos colaboraram em projetos artísticos e de moda por inúmeras vezes, que brincavam, que traziam o ludus novamente para o vestuário ao se mesclar com a moda. por exemplo, o vestido de estampa lagosta, com um caímento semelhante ao khíton e que representava a fertilidade ao dispor o desenho na parte de baixo da peça, cobrindo os órgãos sexuais da mulher. assim como, o chapéu de salto alto, que brinca com a própria história dos chapéus masculinos, em especial a cartola, com seu formato fálico. mas dessa vez quem o cria, usa e reinventa os símbolos históricos, bem como as funções de cada peça de vestuário, é a mulher.


outro momento que eu acho pertinente trazer, foi o movimento punk dos anos 1970. foi transgressor porque foi criado por uma juventude que não tinha nada a perder. todos eram filhos de operários pobres numa inglaterra caótica que passava por uma crise empregatícia. a moda, essa vontade de se vestir diferente dos pais, de criar algo único, uma vez que não se tinha dinheiro para se comprar, os levou a níveis extremos de criatividade e escracho. o senso estético não era pelo gosto do belo, mas de se poder gozar plenamente com o que causava estranhamento. isso, é claro, antes do capitalismo se aproveitar disso e criar o punk de boutique, com peças feitas em escala maior, em contradição com o “diy” (do it yourself), o faça você mesmo. não se customizava mais as próprias roupas, se pagava a alguma marca por uma peça já feita assim.

vivienne westwood é o nome mais lembrado. ela estava no meio underground, pegou elementos que achou interessante, símbolos chamativos e alavancou sua marca. sem críticas a isso, o capitalismo é assim. marcas precisam vender, mesmo possuindo seus exemplos artísticos e criativos em suas peças. mas me espanta acharem que ela criou o movimento. talvez o mainstream, mas, precisamos pensar que a história da moda que conhecemos é aquela moda dos que conseguiram ganhar prestígio, vencer, se sobrepor às outras representações de vestimentas e de outras pessoas de suas respectivas eras.
cito novamente o professor brunno almeida maia: a história da moda é a história dos vencedores. algo que gosto de referenciar com os museus. estes, apresentam suas curadorias com base em alguma narrativa, podendo retirar alguns acontecimentos e simbologias e assim, a história de cada exposição é uma narrativa nova, criada pelos curadores para se contar algo de acordo com suas vontades e especificidades. existe um quê de perigo em se dominar o modo que se contam histórias. e o capitalismo pode e se aproveita disso.
por fim, por fim, como último tópico a ser discutido, trago algo que é incontestavelmente presente na moda, essa ciclicidade viciosa. em alguns períodos históricos, existem avanços sociais e culturais e, consequentemente, isso é refletido na moda, apenas para na próxima década, acontecer um retrocesso. é o que eu chamo de materialidade da revisitação.
nos anos de 1920 com coco chanel e suas criações de vestimentas com silhuetas retas, em busca de esconder as curvas do corpo, gosto pelo agênero, cortes amplos e livres. depois, um regresso com christian dior e a volta da cintura marcada nos anos de 1950, ápice do american way of life, a mulher como esposa, mãe e dona de casa. já nos anos 1970, o movimento punk, já analisado, indo de encontro ao perído anterior.
posteriormente nos anos 1990, com o grunge, algumas referências são retomadas do período passado. mas, o grunge nunca foi um movimento de moda totalmente street style, urbano e criado por uma juventude rebelde transgressora. porque o cinema e a revista tiveram uma influência capitalista, obviamente, favorável a esse movimento na moda. davide sorrenti que se inspirava em nan goldin, gus van sant e harmony korine retratando essa juventude pobre e caótica, que acabou desembocando no heroin chic, essa moda que glamourizava os problemas socio-culturais dessa juventude.
vale ressaltar que o movimento anti fashion nos anos 1980 com rei kawakubo, yohji yamamoto e issey miyake, foi de encontro a tudo que a indústria ocidental estava trazendo para a moda, indo contra o modismo e valorizando caimento, durabilidade, qualidade de materiais e força de trabalho. para nos anos de 1990 e 2000 a indústria da moda retomar o consumismo e o culto ao corpo e a magreza. que, por um breve momento na década seguinte, foi visto com maus olhos e o movimento body posite ganhou força. só para então, agora, estar tendo o retorno do culto à magreza extrema, juntamente com uma onda avassaladora de conservadorismo e micro tendências alienantes.
porque, a indústria da moda a partir do momento que percebe que aquilo não é mais vendável, descarta. às vezes parece que estão querendo nos colocar novamente chapéus imensos que cobrem nossa visão periférica, logo após usarmos nosso khíton.

texto: camila simões
arte da capa: lua arimura



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