no mês passado, participei do debate após a sessão do documentário experimental vermelho bruto, de amanda devulsky. conversei, ao lado de juliane peixoto, sobre esse filme que é uma joia do cinema brasiliense. debater uma obra produzida aqui na cidade, no espaço do cine brasília, foi muito especial. afinal, filmes são feitos para a tela mas só funcionam se forem vistos, e discutidos. pensando nisso, resolvi publicar minha fala em formato de crítica, e aproveitar o gancho para divulgar a próxima sessão de vermelho bruto, que será na cinemateca brasileira, em são paulo, no dia 24 de julho (quinta-feira), às 17h, seguida de uma conversa especial


sinopse: na época em que o brasil estava se tornando uma democracia (1985-1995), quatro mulheres – jô, eunice, alessa e fabiana – se tornavam mães na adolescência. evolução política e a entrada abrupta na vida adulta e na maternidade são misturadas num filme que mostra o espaço doméstico, construído a partir de acervos pessoais e imagens contemporâneas, filmadas pelas protagonistas em 2018, durante a campanha eleitoral de jair bolsonaro.


eu gostaria de começar pelo ponto que talvez me chame maior atenção no filme, que é a atmosfera cotidiana que ele é capaz de transmitir. justamente o formato – experimentos com imagens de arquivo de vídeos caseiros espontâneos e premeditados – é o que possibilita a criação dessa atmosfera. é de uma sensibilidade que toca e emociona justamente por se aproximar tanto da realidade em si. a obra se torna uma grande representação da memória e do imaginário. é a interseção entre visão/sensação, tão característica do cinema experimental e tão bem executada aqui, pela equipe e pelas mães protagonistas. isso também fica evidente e tangível pela corporalidade do registro. quando uma delas diz “eu tô tremendo porque eu tô em movimento, tô filmando e tô andando”, o fenômeno causa influência direta nos resultados da nossa percepção. parecem contribuir também para essa construção alguns “interlúdios”, que nos situam em tempo e local. Brasília, Brasil, anos 80, 2018. as manchas e mofos deixadas nas fotos. memórias de água, de concreto, de televisão – os programas e as propagandas.

em entrevista à revista madonna, amanda (realizadora e montadora), pedro (colaborador e produtor) e luísa (montadora) falam bastante sobre a montagem não seguir por regras de hierarquia, então, é interessante ver as imagens como igualmente importantes nessa construção. o trabalho que a montagem desempenha, a meu ver, é o de relacionar sentimentalmente uma imagem à outra, criando um sentido maior dentro dessa teia de imagens, buscando por momentos em que elas se entrelaçam e relacionam. e também passa pelas escolhas do que vai ou não para o filme – uma questão inevitavelmente prática, e também estética. amanda pontua bastante a importância de pensar sobre as consequências da diferenciação entre “o que é importante e o que não é, o que vai afetar o espectador e o que não vai”. assistindo ao filme, fica nítido que existem momentos “mais e menos narrativos”, e nem por isso as imagens “menos” deixam de ser igualmente importantes pra construção da obra como esse retalho de memória e história. amanda diz:

existe todo um contexto social e cultural que vai dizer [o que] não é uma imagem, não é um filme. a importância desse tempo que pode parecer um “tempo morto”, a importância de coisas que parecem não ter importância, coisas que você não consegue organizar numa ordem onde cada uma delas tem um lugar específico. o filme, de alguma forma, busca abrir um espaço para coisas que não são, mas que podem ser.

todas as imagens e sons do filme contam uma história, transmitem sensações. o todo não faria (tanto) sentido quanto faz se uma ou outra parte fosse excluída ou considerada menos importante.

amanda fala sobre a trilha sonora quando chega à reflexão de que os moldes nos quais o filme se instalou não foram um movimento da equipe de “querer ser subversivo e fazer tudo ao contrário”, mas sim de que os processos se deram naturalmente. 

por acaso (ou não), percebemos que essas regras que ditam o que é importante iam se desfazendo, como um castelo de areia.

justamente daí, penso, o experimental parece se aproximar mais do que qualquer outra linguagem ao real, ou pelo menos aos sentimentos reais, e isso implica ir contra as regras do cinema tradicional, que são convencionalmente mais formais. o pensamento, a memória, as sensações e a contação de histórias não são formais.

agora, passando um pouco pelas personagens/autoras. na mesma entrevista, pedro e amanda falam sobre as escolhas estéticas e éticas feitas pelas protagonistas ao realizarem suas filmagens, o que filmar e o que não filmar. essa postura demonstra a atenção que elas tinham ao projeto do filme no qual estavam envolvidas. elas sabiam (ou foram descobrindo) o que tinham para falar – e que queriam falar, sobre suas vidas, sobre elas mesmas, sobre o brasil, sobre a política, sobre ser mãe e mulher.

é muito genial que a câmera tenha sido emprestada à elas e que elas tenham cedido seus arquivos pessoais, um filme sobre essas mulheres só poderia ser escrito dessa forma por elas mesmas. as imagens filmadas por elas nos colocam dentro de suas realidades. nos fazem refletir sobre o fato de que as pessoas sempre pensam sobre a vida, a própria e a dos outros, o individual e o coletivo.

interessante perceber como a vida particular e a pública se misturam, são misturadas, e não são nunca totalmente diferenciadas ou separadas uma da outra. imagens pessoais se misturam com as imagens de um país. quando as crianças estão observando os militares na rua, não se sabe quem filma mas se presume que é “só uma pessoa comum”. logo depois, imagens do eixo monumental em brasília, filmadas por uma das mães da janela do seu emprego. ela decide terminar a filmagem no céu.

impressionante, também, como as imagens são tão harmônicas entre si e ao mesmo tempo tão únicas de cada uma delas. nessa esfera, o filme não se prende e não se propõe a estereótipos. todas as mulheres, histórias e memórias apresentadas são sutilmente complexas e humanas. é uma representação bastante fidedigna, difícil de ser atingida, mas que imagens de arquivo pessoal e filmes caseiros normalmente tem o poder de transmitir, talvez por serem mais livres de performance – mas nunca totalmente. não é pintado um estereótipo nem de todas as mães como uma coisa só e nem de cada uma delas. elas têm particularidades que nos são apresentadas quase como na própria vida, como se fosse alguém que estamos conhecendo próximo a nós, que nos conta uma história.

pensando em exemplificar melhor essa relação, reparei num tema que recorre algumas vezes durante o filme: o medo – ou a adrenalina – de sair sozinha na rua à noite.

na primeira cena em questão, uma das mães diz: eu queria sair pra caminhar mas são meia noite e eu não consigo andar sozinha, né… algum tempo antes, outra sai do trabalho tarde da noite, quando muitos já estão em casa (como ela mesma diz) e caminha sozinha, na rua escura. e, mais pro final do filme, outra anda de moto numa estrada de terra batida esburacada e mal iluminada, também já é tarde. no primeiro caso, uma mulher quer passear nas ruas de são paulo ao invés de ficar no quarto de hotel, mas não pode porque tem medo (real) de que algo ruim aconteça caso ela o faça. ela quer, mas não pode. no caso da outra, não é uma questão de querer ou não, mas de precisar. e depois que ela já está lá, ela “aproveita” esse tempo numa “caminhada reflexiva” sobre as vidas diferentes da dela. nada pior do que estar saindo do trabalho tão tarde acontece, mas poderia acontecer. por último, não fica claro se o passeio de moto é divertido ou não, talvez seja as duas coisas ao mesmo tempo: excitante e assustador.

esses medos, por mais que sejam parecidos como sensação, não são iguais na forma em que são vividos por cada uma delas. e essa relação permeia todo o filme, passando principalmente pelas questões com a gravidez na adolescência, e com a política no brasil e em brasília nos anos 80 e em 2018.

para além disso e para finalizar, existem vários outros motivos pelos quais o filme é esse retrato sensível do feminino, da vida doméstica e da influência política no meio disso. o modo como uma mulher escolhe lavar o próprio cabelo (e se filmar enquanto o faz) diz tanto sobre quem ela é quanto a história da sua gravidez na adolescência; as memórias e a vida passam por coisas tão bonitas e tão dolorosas e tudo se mistura; a obra transforma o cotidiano em imagens mágicas; é um filme sobre reviravoltas, que deixa a sensação de que a liberdade feminina precisa ser vivida em algum momento da vida (e da sociedade).

escrito por gabriela de mello


a próxima sessão de vermelho bruto será na cinemateca brasileira, em são paulo, no dia 24 de julho (quinta-feira), às 17h, seguida de uma conversa especial
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Uma resposta para “@gabrielamxllo indica: vermelho bruto”.

  1. muito legal esse uso das imagens de arquivo. vou ir atrás do filme

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