o algoritmo como curador

os algoritmos reorganizaram o modo como vivemos na internet. essas equações invisíveis que escolhem o que vemos, ouvimos, sentimos.
o que começou como promessa de personalização se tornou mecanismo de repetição. e, aos poucos, a surpresa foi substituída pela confirmação. tudo se parece, tudo se comporta, tudo se encaixa. é difícil lembrar como era navegar sem ser guiado. e mais difícil ainda imaginar como seria inventar outro caminho.
este ensaio não busca responder como vencer o algoritmo, mas talvez insinuar como brincar com ele. se os algoritmos são feitos de padrões, talvez a resposta esteja no desvio, no erro, no que não escala, no que não vende.
há um conforto estranho em ser guiado. abrir um aplicativo e ter uma música esperando. ver vídeos que parecem te conhecer. receber recomendações como quem recebe um presente: “isso é a sua cara.” e às vezes é! mas, em algum ponto, a sensação de descoberta virou confirmação. deixamos de procurar.
é isso que o algoritmo faz: mima. mostra mais do que você já gosta, entrega o que você conhece com outra embalagem. enquanto isso, silencia o que é novo demais, estranho demais, desinteressante demais para ser rentável. a curadoria algorítmica nos protege da dispersão e nos rouba a surpresa (e nós permitimos).
eu lembro da época em que conhecer algo novo era quase físico. ir até a feira e escolher um filme pela capa. entrar em blogs com listas de “10 bandas de ska que ninguém conhece”. clicar em links do amino até cair em fóruns asiáticos. a internet era uma floresta. agora é um jardim murado, com trilhas pavimentadas e publicidade na sombra.
como lembra byung-chul han, vivemos numa era da transparência, onde tudo precisa ser otimizado, agradável, produtivo. o algoritmo é o arquiteto invisível dessa lógica. ele opera em silêncio, mas nos convence de que aquilo que aparece com frequência é o que importa. e assim, nossa sensibilidade vai sendo treinada a reagir com prazer ao que já conhecemos. tudo vira familiar. tudo vira conteúdo.
mas será que tudo o que é familiar também é bom?
não se trata de demonizar a tecnologia, o algoritmo, por si só, não é um vilão. ele apenas cumpre sua função: prever, ordenar, repetir. o problema é quando esquecemos que há vida para além disso. que há valor no tropeço, no ruído, no clique errado. quando deixamos de buscar por conta própria, terceirizamos não só nossa curiosidade, mas também nosso desejo. e o desejo, domesticado, vira hábito. rotina. feed.
talvez o gesto mais radical hoje seja o de reaprender a se perder. abrir um link aleatório. sair do “para você”. se expor ao estranho. buscar algo sem saber o que. deixar que o tempo da internet volte a ser o tempo da deriva, e não o da produtividade.
não precisamos deletar tudo. talvez só mover um pouco o corpo. mudar o jeito de olhar. criar contra a maré. responder ao excesso de previsibilidade com uma recusa amorosa: fazer playlists que não façam sentido. ler o que não está em alta. escrever o que não viraliza. reencantar a rede exige coragem para errar – e gentileza com o erro.
em um mundo onde tudo é otimizado, o desvio é uma forma de cuidado.

texto de rafo garcia
arte de dressa constantino



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