Halperin, c’est moi

Em 1995, em sua apresentação do livro Saint Foucault, o teórico e pesquisador queer David Halperin declarou, de forma icônica, que venera a obra de um certo filósofo francês (Halperin, 1995, p. 6). O livro, que se tornou um cult classic da teoria queer, foi uma poderosa investigação sobre a vida e obra de Michel Foucault e o seu impacto para ativistas homossexuais dentro e fora da academia. O que originou o título do livro, bem como o ímpeto de escrevê-lo, foi a crítica tendenciosa e maliciosa de Richard Mohr, representante de uma vertente essencialista dos estudos da sexualidade, que rotulou a obra de Halperin como sendo uma “idolatria genérica” dos volumes da História da Sexualidade (Halperin, 1995, p. 4).
O desprezo de Mohr poderia ser resumido como uma leitura precária e incorreta da noção de que a estirpe de pesquisadores foucaultianos supostamente afirmavam que a homossexualidade seria socialmente construída e que, portanto, resultava numa espécie de determinismo que acabava por naturalizar somente a heterossexualidade. Não é de especial interesse agora refutar o que Mohr tinha a dizer sobre a tal crítica ao construtivismo social, basta apontar para a observação feita por Halperin que Mohr não teve a mesma sorte que a sua de ler Judith Butler (Halperin, 1995, p. 188).
De acordo com Halperin, os comentários de Mohr declararam que sua pesquisa de outros autores era razoável, honesta e crítica, enquanto a dedicação de Halperin a Foucault foi descrita como fanática, indiscriminada e estúpida (Halperin, 1995, p. 5); Halperin conclui, então, que Michel Foucault havia alcançado um status de autor com o qual não era mais possível ter uma relação que fosse de natureza racional e não-patológica. Num movimento de inversão performativa, que é por excelência queer, ele aceita e honra seu fanatismo foucaultiano.
Após a morte de Foucault e em plena crise da AIDS, Halperin constatou a emergência de retóricas conservadoras acerca de seus escritos e de seus colegas, que foram demonizados e desvalorizados muitas vezes com tons homofóbicos (Halperin, 1995, p. 7). Diante disso, ele esclarece a natureza de sua identificação pessoal e política com Foucault: “a crítica política de Foucault ao discurso sexual oferece a queers de todos os tipos uma arma poderosa para desafiar e resistir às operações discursivas da homofobia contemporânea, se não para prevalecer contra as instituições nas quais seus discursos criminalizadores, patologizantes e moralizantes estão arraigados” (Halperin, 1995, p. 120).
Eu me identifico com e reivindico os sentimentos de devoção, admiração e respeito descritos como obsessivos que Halperin tinha por Foucault. Sua paixão que o levou a exaustivamente estudar uma obra e se posicionar em defesa de um autor que nunca havia conhecido pessoalmente é bastante familiar para mim — eu possuo uma relação definitivamente fanática com Paul B. Preciado. Halperin sou eu (Halperin, 1995, p. 8). Há muitos anos eu vivo e respiro a obra dele: é um hobby, pesquisa acadêmica e minha religião.
Criar um bot que reproduz mais de 600 excertos de seus livros selecionados e transcritos por mim, administrar um blog em que eu disponibilizei arquivos PDF de toda a sua obra em quatro idiomas diferentes, popularizar no Twitter o primeiro download do filme que Preciado dirigiu, participar da primeira compilação brasileira de textos escritos sobre o autor, possuir um autógrafo dele emoldurado na parede de meu quarto… essas são algumas de minhas insígnias de
veneração.
Foi aí que eu me dei conta de que, como veremos a seguir, o comportamento de Halperin, o meu comportamento, bem como a ostracização dessa relação de idolatria, é historicamente evidente na figura da fan girl. Será em busca deste particular tipo feminino e “patológico” de fãs que voltaremos nossa atenção agora para o crepúsculo.

A fan girl crepuscular
Ao folhear as páginas da International encyclopaedia of gender, media, and
communication, encontramos um verbete bastante elucidativo sobre a fan girl, que poderia ser definida assim: “uma forma de consumo cultural associada principalmente a meninas, à meninice feminina e à performance da feminilidade. O termo também é usado como verbo, descrevendo um ato de consumo cultural juvenil, (hiper)feminino e performativo, marcado por demonstrações excessivas de afeto encarnado” (Hannell, 2020, p. 1). Todas as qualidades atribuídas a Halperin por Bohr (e com as quais me identifico) se repetem com elas, cujo estereótipo é o de uma pessoa obcecada, irracional, demasiadamente emotiva e excessivamente sexual.
No texto, Briony Hannel utiliza um referencial bibliográfico de outros autores para localizar as práticas de fan girls ao menos desde o século XIX com as matinee girls e com as screen-struck girls dos anos 1900, e afirma que elas já sofriam a ridicularização na Era Vitoriana (Hannell, 2020, p. 1). A autora evidencia que este grupo seleto de mulheres, considerado “uma das mais devotas das audiências”, tem se engajado na criação de zines, na produção de newsletters, na personificação de seus astros favoritos e na presença ativa em shows e eventos muito antes da internet (Hannell, 2020, p. 1)— foi na popularização dos sítios digitais, entretanto, que elas alcançaram o seu auge de repercussão na mídia.
Indo direto ao ponto, veremos através da pesquisa de Melissa Click que Stephenie Meyer, a autora da Twilight Saga, foi creditada por ter sido uma autora pioneira no uso da internet para se comunicar com as fãs e construir uma rede muito eficiente que sustentava sua obra e difundiu em larga escala seus vampiros vegetarianos (Click, 2010, p. 3). Nenhuma outra figura deixou tão clara a misoginia e a perda do privilégio de ser levada a sério quanto a figura da Twihard, que demonstrou em seu corpo os sintomas febris e insanos da histérica vitoriana (Click, 2010, p. 6), e que gerou tanta repercussão e condenação na cultura pop.
Eu fui uma fan girl de Crepúsculo. Seja porque eu desejava ter algo para conversar com minhas melhores amigas na escola (pelas quais eu era apaixonada), ou seja porque era uma alternativa melhor que jogar futebol com os garotos, o fato é que a maldita saga de Meyer foi a minha primeira obsessão na adolescência — a primeira série de livros dos quais eu sabia absolutamente todos os detalhes. Para mim, não foi sobre Team Edward ou Team Jacob, mas sim lembrar que Bella Swan almoçava lasanha e leite e ouvia Linkin Park, e me identificar tanto com essa personagem nerd e atrapalhada que era um self-insert da própria Meyer, e que serviu para tantas outras garotas – até aquelas que ainda não eram garotas.

Meu tipo favorito de heroína
Paul B. Preciado pode não ser um ator teen e hollywoodiano, e mesmo seu lugar na categoria biopolítica de “homem” é colocado em jogo pelo próprio autor. Eu mesma não falo que sou uma mulher com tanta certeza assim, mas o fato é que quando me cansei de Forks e olhei pela janela de meu quarto, era o alvorecer de minha própria masculinidade que estava diante de mim. E quando eu segurei o Manifesto Contrassexual em minhas mãos pela primeira vez, eu me senti de novo como se minha mãe estivesse me levando ao aeroporto de Phoenix com as janelas do carro abertas (Meyer, 2008, p. 1). Eu não sou apenas uma fan girl de Preciado, na verdade eu poderia até argumentar que minha atividade em torno de sua obra teve a força de uma fandom inteira.
Eu não digo nada disso usando a língua dos homens e suas demonstrações fálicas, como quem sabe bastante sobre a alta filosofia e por isso tem um pau enorme. Meu pau está atrofiado por estrogênio e o que me interessa são as ferramentas das (fan) girls. Falo com a paixão de quem cria websites e organiza arquivos sem esperar nada em troca, como quem não se preocupa em exibir vários diplomas e artigos para provar sua inteligência. Sou uma humilde feminista fanática permanentemente conectada à internet, sem peso diante da tela, flutuando fora do espaço e do tempo (Preciado, 2023, p. 294). Com a internet, aprendi outro idioma, o inglês, que assim como no caso de Preciado me permitiu ter acesso ao mundo do feminismo.
As informações de sua obra, lidas na tela de meu computador ou celular, se transformaram em afetos encarnados — heroína digital (Preciado, 2023, p. 67). Seja quando o autor enfatiza a importância de inverter a posição de “objeto” que as minorias sexuais historicamente ocuparam (como o objeto da clínica, o paciente, o Monstro, aquele que é estudado), ou seja quando ele está descrevendo em minúcias o ato de enfiar dois dildos em seu próprio cu, o fato é que Preciado não crê na imparcialidade, na frieza, na distância entre linhas impressas/projetadas e a carne. Compartilho com ele o meu desejo pela hipertransparência, a minha vontade de transição, e a crença no potencial ilimitado de um corpo.

Epílogo: um acontecimento especial
Cerca de 2019. Estou em meu quarto e de frente ao computador, como sempre. Há cerca de um ano eu faço a moderação do “Grupo Preciado” no Facebook, um oásis digital que criei com um colega de pesquisa e mentor na época, Bryan Axt, enquanto uma subdivisão do “Teoria Queer Brasil” que existia ali. Várias pessoas que hoje possuem certa fama acadêmica nos estudos feministas e queer eram parte dos membros. Antes dos reels e shorts, eu passava o dia inteiro no grupo e dava uma olhada na nossa aba de arquivos que tinha uma impressionante quantidade e qualidade de textos.
Em algum momento eu decidi que criaria um novo perfil, que não exibisse meu próprio nome e rosto, para administrar essa e outras páginas da rede social. O perfil, como vocês podem adivinhar, tinha como nome “Paul B. Preciado” e uma foto bonitinha que escolhi dele, mas foi rapidamente abandonado alguns meses depois. Logando na conta, fico surpresa ao ver que eu tenho algumas dezenas de mensagens não-lidas e centenas de pedidos de amizade. Caramba, não é possível que essas pessoas realmente pensam que eu sou o Preciado — elas não sabem que ele textualmente já admitiu ter repulsa por redes sociais? Enfim. Foi divertido até eu ver quem estava falando comigo numa das mensagens, e foi aí que eu deixei meu cigarro escapar de meus dedos e levei a mão à boca em choque.
Sem que eu exponha seu nome e acabe levando um processo, posso dizer que era um certo fotógrafo, ex-amante e amigo de Preciado, e ele estava agora choramingando que eu, digo, o Preciado, não havia lhe avisado que estava de passagem em Berlin. Mais apavorada que Bella Swan diante do vampiro nômade e psicopata James, e mais veloz do que quando eu entrei na sala do cinema na pré-estréia de Breaking Dawn, eu apago a conta e fecho o meu laptop.

Referências Bibliográficas
CLICK, Melissa A; AUBREY, Jennifer Stevens; BEHM-MORAWITZ, Elizabeth (orgs.). Bitten by Twilight: youth Culture, media & the vampire franchise. New York: Peter Lang Publishing, 2010.
HALPERIN, David M. Saint Foucault: towards a gay hagiography. New York: Oxford University Press, 1995.
HANNELL, Briony. Fan girls. In: ROSS, Karen (org.). The international encyclopaedia of gender, media, and communication. Hoboken: Wiley-Blackwell, 2020.
MEYER, Stephenie. Crepúsculo. Tradução de Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2008.
PRECIADO, Paul B. Dysphoria mundi: o som do mundo desmoronando. Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.

texto de technogender
arte de andressa constantino



Deixe um comentário