acredito que deva ter sido em 2018 ou 2019, logo quando entrei no twitter, quando tive meu primeiro contato com as tabis, os sapatinhos com divisória no dedo inspiradas nas meias tradicionais japonesas e que viralizaram na internet depois de postagens com o icônico modelo da Maison Margiela. foi no meio desse ano (maio ou junho?) em que vi no x um post da influencer ully correa com cupom de desconto para compra da tagui (a tabi da marca agui).
levou um mês e pouco até eu finalmente decidir comprar minha tagui e participar do culto digital dos ‘sapatos de dedinho’, com direito a fotos segurando cigarro entre eles e fazendo matches com outros sapatos de dedinhos de amigos.


eu estive, durante toda essa minha jornada como consumidora, influenciada por imagens em que eu via na internet (no twitter, sendo mais específica), que me levaram a um processo de compra e de divulgação nos mesmos meios. se eu não estivesse na internet, muito provável que eu nunca teria conhecido as tabis e muito menos a agui.

imagem autoral i: eu e enzo caramori usando
nossas tabis

as tabis são apenas um exemplo desse fenômeno que me intriga desde o final de 2023, quando cursei uma disciplina sobre dataficação e subjetividades, onde pude deslumbrar a complexidade que é o mundo da conectividade e dos dados e em como eles conseguem alterar os nossos modos de pensar e decisões. na época, como estudante de moda, o que mais me intrigava era como que os nossos inputs (os dados que informamos para alguma plataforma) que levam à criação da nossa persona digital (nossa for you e ads personalizados, regidos pelos algoritmos) podem ser influenciados retroativamente por meio dos outputs que recebemos. acredito que dá para começar por esse caminho para refletir sobre o nosso estado atual consumista e como todo o sistema de produção e promoção de moda se ampliou massivamente.


para iniciar, por que consumimos o que consumimos?

se indagar sobre o nosso consumo é indagar sobre o nosso desejo. não entrarei aqui em detalhes sobre as raízes psíquicas do nosso inconsciente que nos levam a desejar certas coisas em relação a outras (não é esse o foco), muito da teoria acadêmica de moda ignora esses fatos. o que sempre é discutido é como o sistema da moda se forma e em qual chave sistêmica e estrutral ele acontece, e não pelo viés da subjetividade e da formação de cada indivíduo (isso se desdobra mais para frente no final do século xx).


o que se fundou na sociologia de moda e foi tido como a análise principal a ser levada a sério foi a trickle-down theory, atribuída majoritariamente ao sociólogo georg simmel no início do século xx, onde ele apontava que a moda era um sistema de imitação onde as classes sociais ditavam as tendências e o bom gosto, sempre vindo de uma classe superior que era transmitida para a classe inferior. esse movimento se renovava a partir do momento em que a classe inferior conseguia se assemelhar a superior, fazendo com que a elite criasse novos estilos para se diferenciar (e se distanciar) socialmente e economicamente.


por muito tempo, essa teoria foi aceita. o contexto em que ela foi pensada, o modernismo, no final do século xix, fez eclodir um estilo de vida onde os centros das cidades, a noite, os espaços culturais e, consequentemente, a moda, viraram partes fundamentais do cotidiano de cada um, fazendo com que pensadores da época também vissem relevância no tema. no entanto, só foi no meio do século xx em que essa “homogeneidade” de tendências foi se
dissipar, com o surgimento de novos modelos de produção industrial que “democratizaram” o acesso a moda, gerando outros estilos, que geraram outras comunidades, subculturas, comportamentos, novas influências, etc, que levaram a uma atualização da teoria trickle-down de simmel. essa mudança foi percebida principalmente pelos sociólogos gilles lipovetsky e
diana crane. depois disso, foi possível concordar que o sistema da moda (de produção, distribuição, difusão, recepção, adoção e consumo, como explica yuniya kawamura) passou de um modelo vertical de trânsito de informações e materiais para um modelo horizontal de influência mútua entre seus pares e àqueles que tem os seus próprios líderes. quando a moda ganhou o discurso de ser um “meio para se expressar” e poder “dizer quem você é”, aí sim que não foi mais possível voltar atrás nessa teoria da influência horizontal.


retomando à pergunta inicial, é difícil pensar o porquê consumimos aquilo que consumimos, aquilo que vestimos e desejamos, mas sempre é possível traçar uma linha (no nosso imaginário) de todas as imagens e conteúdos que passaram por nossas vidas e que foram absorvidas em nosso repertório, se transformando nas referências que temos hoje e que nos norteiam acerca do que fazemos, o que ouvimos, o que vestimos, com quem andamos, etc.
todo mundo possui o seu próprio estilo, gosto e visão, por mais aprofundado ou raso que seja, seja consciente ou não, mas quando o nosso íntimo é interferido por influências externas a nós, principalmente quando estamos conectados na internet, os nossos pensamentos, desejos e, claro, nosso consumo, se misturam em um imbróglio daquilo que tínhamos dado como conhecido, pertencente ao nosso imagético, com aquilo que é desconhecido, massivo, volátil, que nem sempre vem para ficar (as trends passageiras) mas que conseguem mudar a nossa própria percepção enquanto sujeito.

nota: essas ‘influências externas’ sempre estiveram aí pré-internet, sendo tudo aquilo que nos rodeia, e o que nos molda é dado a partir da nossa relação ao outro, ao ambiente. entretanto, a era digital globalizada datificada impulsionou essa troca de signos em níveis gigantescos, chegando a um ponto onde o nosso desejo é guiado unicamente pela nossa visão (na tela do celular) sem nem imaginar como isso seria em nosso corpo (pensando em uma peça de roupa).

imagem autoral ii: sonny angels que comprei para mim e meu
namorado, mais um ‘charm’ de bolsa que eu acabei
descobrindo pela internet.

estamos consumindo o que queremos, mesmo?

o antropólogo david le breton já comentou que a nossa sociedade já está completamente dominada por pessoas em espaços públicos com a cabeça abaixada em seus smartphones, em seus mundos individuais. isso já não é novidade para ninguém, claro, mas o que talvez seja uma novidade é uma consequência desse fenômeno apontado por le breton, sobre os efeitos que a presença da vida digital possui em nosso consumo na vida real. a provocação que desejo fazer é: estamos consumindo aquilo que realmente queremos? não porque não desejamos, mas porque o que pode estar sendo apresentado para nossa persona digital pelos nossos algoritmos (em nossas telinhas) não fazia parte do nosso repertório e muito menos dos nossos inputs iniciais. qual é o ponto de virada entre algo nos chamar atenção ou apenas despertar um interesse de compra efêmero?

gostaria de reiterar: não faço juízo de valor e muito menos desconsidero a possibilidade de sermos apresentados a coisas, conteúdos, pessoas, roupas novas e etc e que nos interessemos genuinamente. o ponto é que essa influência está no limiar de ser algo genuíno (onde apenas as coisas que vemos na internet aparecem sem nenhuma influência direta de compra) e de ser puramente um interesse de grandes empresas e do próprio capital. e às vezes podemos achar que até é um interesse genuíno vindo de nós por certas roupas, lugares, etc, até nos darmos conta de que gastamos mais do que o normal e tudo porque alguém no tiktok ou twitter falou sobre. a moda apenas existe e é pertinente por ser um fluxo, um movimento, que se constrói pelo efêmero, onde se reinventa e acompanha a passagem do tempo, e é por isso que deve-se olhar com atenção aos momentos em que esse fluxo é alterado, renovado, e questionar de onde que está vindo essa mudança e com que frequência. é muito difícil falar sobre isso porque sempre pode existir uma explicação para aquilo que desejamos, mesmo se for apenas uma resposta do tipo “eu quero e acabou”. isso é válido, mas se pararmos para pensar a gente vê que não existe mais nada que fazemos na vida real (irl) que não transpassa pelo digital. sempre estamos influenciando ou sendo influenciados assim que isso é registrado e publicado.

influenciando ou sendo influenciado, tudo vira dado. e esse dado vai para o algortimo, que nos alimenta com conteúdos novos todos os dias. a pesquisadora de novas mídias josé van djick escreve sobre o fenômeno conhecido como “dataísmo”, que é a crença absoluta nos dados, tomando-os como verdade e guia para tomada de ações. parece abstrato pensar nisso em nosso dia a dia, mas em grandes empresas, em áreas de marketing e de pesquisa, é esse método que prevalece e que resulta em produções de moda e de imagem atuais. existem já vários artigos e estudos de caso sobre como grandes fast-fashion estão usando modelos de análise de dados para produzir coleções inteiras, como a shein e a zara, e que efetivamente conseguem vender porque produzem exatamente o que os consumidores querem. essa aí já é uma outra problemática sobre como tudo está se tornando automatizado e menos humano, mas dá para escrever um texto inteiro novo sobre isso e como influencia a produção e promoção de moda atual.

você é seduzido pelos seus dados?

enquanto pensava nesse texto eu perguntei para minhas amigas quais foram os itens que elas compraram ou lugares que elas foram e que só descobriram/se sentiram influenciadas por conta da internet. alguns acessórios, itens de maquiagem, uma tagui (também, como eu), mas não muita coisa. fui mais a fundo com uma amiga específica e questionei por que ela estava usando um determinado óculos de grau (que ela nunca havia usado) em tal dia. ela me disse que era por conta da cantora amaarae e do estilo office siren, que combinava com ela. perguntei por onde ela conheceu a amaarae e disse que tinha sido por conta de um tweet da revista pitchfork mencionando uma resenha sobre o álbum ‘fountain baby’.

essa pequena interação mostrou sobre como que consciente ou inconscientemente estamos agindo em função de breves momentos que passamos na internet, vendo ou ouvindo coisas novas, e que podem se tornar referências genuínas e sem influência em um poder de compra (como foi o caso da minha amiga, até ela decidir comprar o óculos de grau).

de certa forma, estamos todos sendo seduzidos pelos próprios dados, por mais mínimos que eles sejam. isso não é necessariamente um problema, como eu pontuei, mas é algo a se prestar atenção. entender de onde estão vindo os nossos desejos consumistas mais recentes pode ser um exercício para ajudar a entender mais sobre nós mesmos, o que verdadeiramente gostamos e que imagem desejamos passar. se baseamos todo o nosso gosto a partir de conteúdos e mídias que aparecem nas nossas redes sociais, então talvez seja a hora de dar um passo para trás e olhar ao nosso redor e sentir um pouco mais o ambiente que ocupamos. e isso leva ao meu ponto final nessa reflexão: parar e pensar sobre o nosso consumo e a interferência que as redes sociais e os algoritmos realizam no nosso gosto faz com que apreciemos mais quando somos influenciados diretamente por alguém ou algum amigo, na vida real. os melhores momentos em que me sinto presente são quando eu vejo alguma coisa pessoalmente que realmente me chama a atenção e eu me sinto atraída. consigo pensar em filmes, algumas peças de roupa, lugares, estilos de cabelo que ficaram por um tempo na minha cabeça e eu desejei ter para mim ou experienciar por uma vez, e foram momentos em que eu me senti mais presente dos outros e de mim mesma.

como eu não sou hipócrita…
enquanto eu escrevia esse texto eu mudei de opinião algumas vezes, pesquisei cores de cabelo diferentes no pinterest para pintar o meu e comprei um puma speedcat no enjoei depois de ter visto alguns looks com ele no twitter. não estou imune, ainda.

realizei um diagrama para ilustrar como que funciona a relação entre moda e mídia no sistema de promoção de moda, que é fundamentado principalmente através de profissionais de comunicação. de umas décadas para cá, a legitimação do discurso de moda sofreu uma alteração de pertencer somente a comunicadores profissionais do ramo (jornalistas, críticos, etc) e passar a dividir espaço com influencers e a própria cultura de dados que faz viralizar conteúdos via internet. hoje em dia, o próprio espaço tradicional da promoção de moda, o desfile, está passando por alterações em relação a sua execução, com a criação de lugares e momentos cuja finalidade é para o registro e postagem em redes sociais.

a moda é pautada em sedução que leva ao consumo, e esse consumo torna-se criação no novo sistema da moda dataficado, ao passo em que a divulgação de roupas e estilos na internet fomenta bancos de dados que geram coleções inteiras de fast-fashions e algumas marcas. é um ciclo retroativo e complexo, que está apenas começando a dar as caras.

diagrama autoral i: o estado atual da comunicação e reprodução de moda

texto por pina claire

arte por andressa constantino


referências:

Rocamora, A. (2022). The Datafication and Quantification of Fashion: The Case of Fashion Influencers. Fashion Theory, 26(7), 1109–1133. https://doi.org/10.1080/1362704X.2022.2048527
Kawamura, Y. (2023). Fashion-ology. New York: Bloomsbury Publishing.
Crane, D. (2000). Fashion and Its Social Agendas. Chicago: The University of Chicago Press.
Lipovetsky, G. (1987). O Império do Efêmero. São Paulo: Companhia das Letras
Le Breton, D. (2024) La fin de la conversation. La parole dans une société spectrale. Paris: Métailié.
Van Djick, J. (2017). Confiamos nos dados? As implicações da datificação para o monitoramento social. São Paulo: Revistas USP. https://doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v11i1p39-59
Assunção, L. Big Data: como a moda e a beleza têm usado dados para criar coleções de sucesso. FFW https://ffw.com.br/noticias/business/big-data-como-a-moda-e-a-beleza-tem-usado-dados-para-criar-colecoes-de-sucesso

3 respostas para “você é seduzido pelos seus dados?”.

  1. Avatar de princesinha fofuxinha
    princesinha fofuxinha

    bafo

    Curtir

  2. Incrível Pina < 3

    Curtir

  3. omg pina hiiiii!! seu texto me lembrou uma das primeiras aulas de Fundamentos da Imagem na faculdade de cinema. o prof pediu que fizéssemos um autorretrato em cartolina, com elementos que nos representassem, e várias pessoas utilizaram o Pinterest de inspo, então ele provocou: vocês conseguem se inspirar com outras coisas que não o Pinterest? eu lembro de não gostar do comentário, mas fui orgulhosa, hj sei que ele tava lançando fatos. toda a minha criatividade visual dependia(ou deve depender) do que eu vejo na internet, como se as coisas ao meu redor não fossem estéticamente construídas ou anguladas como uma fotografia ou imagem. a gente se apega muito a templates. sei que tudo se copia, mas desde então me questiono, se me tirassem tudo o que consumo no celular, como minha cabeça funcionaria? o que eu criaria? gostaria muito de descobrir minha versão sem toda essa hiperestimulação. amei a discussão! bj

    Curtir

Deixe um comentário