
estrela binária piscante no céu. a cabeça da medusa que resiste e continua a hipnotizar. petrificar quem se enreda na sua trama. “al – ghul” em árabe: fabricante de danos. os chineses a nomearam “tseih ela” que significa pilha dos cadáveres do alto.

o que seria esse movimento algolritmico?
fabricante de danos.
fabricante de dados.
muito tenho lido sobre nossos movimentos virtuais que vêm sendo moldados e conduzidos por uma dança incessante ao som da música mais longa, tenebrosa porém viciante. monitoradas pelo olho da medusa que seduz a atenção. quando vejo a palavra “algoritmo” lembro de algol, uma das estrelas mais temidas pela astrologia. uma fabulação que crio numa relação que aproxima o sentimento e assim o sentido.
i’m so confused
(estou tão confusa)
my life moves faster than me
(minha vida se move mais rápida do que eu)
can’t feel the ground beneath my feet
(não consigo sentir o chão debaixo dos meus pés)
no matter what i try to do
(não importa o que eu tente fazer)
in times like these, it’s how it has to be
(em tempos assim, é desse jeito que deve ser)
na música “times like these” de addison rae, lançada esse ano, a artista se vê num movimento tão rápido que seus pés não tocam mais o chão.
se tem um ritmo de algol, ele é tão violento na velocidade e intensidade como não sentir seus pés tocarem ao chão. não por levitação ou flutuar ou mesmo voar, mas sim, pela agressiva aceleração dos tempos que também implica no corpo. o médium vitral entre você e o conteúdo não existe mais. além da materialidade. imagens bidimensionais táteis. conteúdos incessantes que geram anestesia. no texto de hito steyerl: “em queda livre: uma experiência em pensamento sobre perspectiva vertical”, a autora discute as mudanças da perspectiva visual na história da arte e como elas mudam nossa percepção de tempo-espaço, no (des)envolvimento tecnológico de imagem se cria a condição de “sem chão” (groundlessness). ela chega na conclusão que estamos em queda constante:
…nas sociedades contemporâneas não há sequer um chão? Como essas representações aéreas – nas quais um aterramento constitui efetivamente um sujeito privilegiado − estão ligadas à hipótese de que nós atualmente habitamos uma condição de queda livre?
hito sabia como addison se sentiria em 2025. como nós nos sentimos agora. ao longo desse texto, sobre a perspectiva vertical, ela diz que “o observador não é mais unificado por tal olhar, mas antes dissociado e sobrecarregado, concebido para dentro da produção de conteúdo”. nessa história, pode ser torre, pendurado, roda ou mundo. o movimento é sempre constante. o rolar das nossas telas é como essa queda. as imagens vão para cima como se nós fossemos para baixo. vamos caindo infinitamente. como alice quando cai no buraco atrás de um coelho branco reclamando estar atrasado: as luzes coloridas a imergem numa lisergia, livros e objetos vão passando estáticos no espaço-tempo enquanto ela
continua a cair às vezes mais rápido mas constantemente quase flutuando como uma pluma que não percebe que cai. perseguindo o tempo cada vez mais perdido, mais acelerado representado pelo animal veloz carregando um relógio.
no giro da roda da fortuna, quem plenamente consegue observar sem muito se afetar, ou está no seu centro ou está do lado de fora. em qualquer outro ponto o movimento é constante, ininterrupto, vertiginoso e delirante. rolando o dedo com a adição de um design de interface que conduz e seduz o movimento é mais ou menos assim que sentimos. exceto quem cria essas ferramentas ou quem se abstém ou teve a sorte de não ter contato.
As imagens que se destacaram de cada aspecto da vida fundem-se num fluxo comum, no qual a unidade dessa mesma vida já não pode ser restabelecida. A realidade considerada parcialmente apresenta-se em sua própria unidade geral como um pseudo mundo à parte, objeto de mera contemplação.
em “sociedade do espetáculo” de guy debord, publicado pela primeira vez em 1967, o autor explana a dinâmica que a partir da publicidade, da televisão, da mídia no geral, contamina nosso modo de comunicar entre nós e com o mundo em si. fragmentando tudo em imagem. num passo além e atual, o algoritmo, esse médium robótico trabalhando a serviço da manutenção do entretenimento, nos retroalimenta daquilo que uma vez nos fisga, aprendendo quais nossas iscas favoritas, assim jogando a vara e retornando sempre aquilo que mais nos pesca.
no meio desse mar que é o fluxo comum entre nós, guy diz que “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas mediadas por imagens”, pois na vibração invisível da canção orquestrada por algoritmos nessas águas, nós nos fazemos peixes tonteantes nos comunicando através de aquários reluzentes quando poderíamos parar a música e nadar em pleno mar livre. cardume de peixes dentro de aquários que não se tocam, mas se espelham, se apresentam, se encapsulam para tentar comunicar.
a luz piscante incessante no fundo desse mar. algol. prende a atenção e desintegra o redor nos lapsos de alternância entre breu e claridão. não há olho que enxergue. ela mantém nossa atenção enredada.
and money isn’t the root of evil these days
(e o dinheiro não é a raiz da maldade atualmente)
it’s attention
(é a atenção)
when time is a thief, i won’t let it rob me
(quando o tempo é um ladrão, não permitirei ser roubada)
canta kali uchis em “just us” percebendo o que nos enreda, nos rouba, nos priva da liberdade como se fossemos borboletas na rede de um colecionador.
na dança de algol, nos entregamos ao ritmo, confiando ser a via plena de entretenimento e comunicação. nós damos os dados e só recebemos os danos.

texto de kaetérine terra clemente
arte por julia lacerda



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