O algoritmo não sabe que a gente terminou. Quer dizer, nem sei se dá pra dizer que a gente terminou porque o que a gente teve nunca chegou a ser definido. Só sei que toda vez que abro o TikTok, o aplicativo dá um glitch que me mostra o perfil dele primeiro. Sempre que vou mandar um vídeo pra uma amiga, o app entende que na verdade quero mandar pra ele, e eu quase torço pro dedo escorregar. Lembro dele toda vez que alguém fala sobre o Bob Dylan no Twitter. Durante uns três meses, nós nos falamos o dia todo, todos os dias, mas curiosamente, ele nunca nem teve meu número de telefone. Quando posto um story, ele é o primeiro a visualizar.

Outro dia meu celular ligou sozinho pra um outro ele. Meu ex namorado. Era uma segunda-feira de manhã, os pensamentos mal começando a se comunicar, e do nada vejo o que um dia foi a minha foto preferida dele me encarando pela tela do celular, sorrindo de boné com amor nos olhos e flores cor de rosa ao fundo. Em outra vida, ele foi um dos meus contatos de emergência, e se você bater o celular na mesa de um jeito específico, ele vai entender que aconteceu um acidente e fazer uma ligação automática, funcionalidade que descobri do jeito difícil. Que atire a primeira pedra quem nunca deu risada quando viu um meme que um antigo affair acharia o auge do humor. Ainda existe dentro de mim o reflexo de mandar e reativar o fluxo contínuo que compõe um flerte online.

Esse sentimento sequer se restringe ao romance: meu avô morreu há oito anos e pontualmente no aniversário dele o Facebook me convida a dar os parabéns pra ele. Minha avó, uns bons anos antes de morrer, já não contava mais histórias coerentes – mas no meu e-mail, tenho uma pasta cheia de relatos destinados a mim como cápsulas do tempo digitais. No Google Maps, depois de algum esforço, encontro a casa onde ela morou por boa parte da minha vida e choro de cantinho olhando pro computador. Alguém que já foi minha melhor amiga no mundo hoje é uma lembrança distante revivida pelo Instagram: “Olha aqui! Há três anos atrás vocês postaram a última foto juntas!”. Sei muito bem que aquelas duas da foto não existem mais, mas naquele amontoado de pixels existem duas meninas que ainda tinham algo em comum e davam uma volta no parque. Não consigo deixar de pensar que ela provavelmente recebeu a mesma notificação que eu hoje.

Podemos apagar os históricos das conversas. Bloquear os perfis. Silenciar quem a gente não quer ver. Apagar as fotos juntos, retirar as marcações. Retirar o endereço da pessoa do iFood. Fazer todo o esforço do mundo pra não coabitar com alguém no ciberespaço. Nada disso vai te impedir de ver alguém que você já amou profundamente na aba “Pessoas que você talvez conheça”. Sempre que isso acontece, dou uma risada de canto por causa da palavra “talvez”.

Justamente quando a gente acha que já concluiu todas as fases do luto e mais umas outras que ainda não deram nome, vem o Google Photos dar uma rasteira: olha esses momentos lindos que vocês viveram! Na sequência, toma aqui essa selfie de dois anos atrás onde você estava com os olhos inchados de tanto chorar depois de perder o emprego. Há três anos também fazia frio e você usava esse mesmo blusão que está usando hoje. Viver o offline é importante, mas gosto de pensar nas imagens que criamos e publicamos como uma espécie de diário visual: eu vivi isso, enxerguei aquilo, amei essa pessoa. Rimos juntos. Mesmo que expire em 24 horas, é sempre uma história que merece ser contada. 

Como quem tira a casquinha de um machucado que ainda não cicatrizou totalmente, abro a busca do Twitter e busco o username dele. No que juro ser a última expedição arqueológica desse tipo, encontro relatos das suas últimas desventuras amorosas e esbarro num flerte vindo de um username que não conheço. Automaticamente construo uma persona elaborada pra ela e espero que ela trate ele melhor do que eu jamais consegui. A sua foto de perfil me tenta como uma maçã no Jardim do Éden. Não resisto, e descubro que somos fãs da mesma banda. Por algum motivo isso me faz rir. Treino meu algoritmo a buscar outras coisas. Seguro o impulso dos meus dedos de buscar uma nova fofoca.

Meu mais recente quase-affair tem pose de cronicamente offline. Só ouve música instrumental e posta vídeos tocando violão diariamente. Na última vez que saímos ele confessa um tanto atrapalhado que desistiu de relacionamentos “desse tipo” (querendo dizer de aplicativo, eu acho?). Falamos pouco por mensagens, mas ao vivo o assunto é tanto que frequentemente nos atropelamos no meio da conversa. Ouvindo a playlist que o algoritmo do Spotify monta semanalmente pra me mostrar novas músicas, me deparo com uma que parece ter sido colocada ali por ele. Coloquei o perfil dele na lista de “melhores amigos” do Instagram. Ele não curte meu vídeo mais recente mas comenta que achou muito engraçado da próxima vez que nos encontramos.

Esses dias, repostei um vídeo no Tiktok que dizia: “Nós transformamos o amor em atenção. Em atualizações, em uma narração minuto a minuto do que comemos e quando fazemos xixi. Os relacionamentos modernos têm essa corrente subterrânea de vigilância.” O algoritmo como curador influencia até o processo de escolha de um possível parceiro, o que é basicamente a coisa menos sexy do mundo. Passamos entre pessoas sem saber como soam as suas vozes ou como elas cheiram. Flertar na internet parece cada vez mais um esporte onde ninguém ganha, o prêmio é falso e o árbitro muda as regras a cada rodada. Enquanto houver o botão de silenciar, bloqueios emocionais/digitais e um meme sugestivo pra enviar, continuarei em quadra por puro e simples amor ao jogo.

texto de m.k

arte de marina cardoso

Uma resposta para “O algoritmo não sabe que a gente terminou”.

  1. Criei uma conta só pra comentar e curtir

    Não achei que um texto achado durante a minha fuga de uma lista de exercícios fosse misturar tanto as emoções na minha barriga. É sempre engraçado ver alguém descrevendo uma coisa que você pensa sobre com frequência! Que delícia de escrita e lindeza de postagem

    E é, o Bob Dylan tá em todos os lugares

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