“Ali onde nenhum movimento, nenhuma ação, nenhuma escolha são possíveis, encontrar alguém ou algo é possível exclusivamente através da metamorfose de si. E só no interior de si que o ser sem movimento pode encontrar o mundo.”
– A Vida das Plantas, Emanuele Coccia

As IAs já tomaram o mundo, a revolução egocêntrica de transformar computação em reflexo humano nos levou a uma hiperrealidade, afim de corrigir situações, invalidar o real. Sinto que o sentimento de se deparar com a realidade e não sabermos distinguir momentos humanos reais e manipulação computacional, criando desconfiança, atrapalham nossa sabedoria e sucessivamente a capacidade de desenvolver empatia.
Penso muito no reflexo da imagem captada pelo olho da câmera e o espelho da tela, tão imprecisa como um reflexo na água… Narciso muda de cenário e de reflexão na nossa época, o rosto perfeito não existe, não nos registramos por paixão a si mesmo, e sim pela falta de si, em questões muito mais densas que um apelo estético.
No entanto não acho que estamos distantes de acabar como Narciso, como flor… ou talvez estejamos, ao provocar a antítese da flor (viva): seu símbolo (morto).
Quando a nossa imagem se torna objetivamente formação abstrata de formas concretas a gente não só observa a paisagem, os símbolos comunicam: a gente existe dentro dela.
“Na flor, a reprodução deixa de ser instrumento do narcisismo individual ou específico para se tornar uma ecologia da condensação e da mistura, já que o indivíduo faz mundo e o mundo inteiro dá à luz o novo indivíduo.
– A Vida das Plantas, Emanuele Coccia
Pós todo esse fluxo de pensamento frenético (porque pensar no presente trás muita ansiedade), eu tentei traduzir essa angustia com uma obra que chamo de Paisagens Florais, tirando as particularidades do rosto num campo que por mais desconfortante seja não se enxergar direito, trás outros focos de encanto.

Eu gosto muito de kaomojis num geral, os de flores são bem expressivos e escolhidos por motivos óbvios: “o ornamento cósmico, o acidente inessencial e colorido relegado às margens do campo cognitivo.“
Com isso, procuro uma forma não verbal de dizer que a natureza está dentro de você. Por isso sinto também muito pertinente o digital, com o ato de programar mundos, que ironicamente são mundos esses que vivemos a maior parte do tempo hoje em dia, restrito a composição de imagens de rostos perfeitos, comunicação de status e espectadorismos — o digital se resumiu a isso.
Somos seres transmutados que aceitam de formas sutis de acordo com a nossa linguagem habitar e se tomar por lugares de controle e formação prática e massificada de opinião, proponho uma transmutação do reflexo do corpo, do contato com o sensível dentro do ser, olhar a identidade de formas subjetivas e colaborativas, um ecossistema.

Se podemos nos enxergar literalmente por deepfakes, entendo que a alma humana seja mais simples que isso, como um caractere tipográfico.
Você pode entrar e experiênciar a obra aqui. (Não só como ter a experiência, mas experimentar! E fazer dessas ferramentas a sua própria obra.)



Deixe um comentário