aviso de gatilho: este texto contém descrições de abuso sexual infantil e material de exploração sexual de menores, violência contra mulheres, imagens de guerra e destruição
em 1973 ana mendieta derramou sangue animal na calçada de um edifício em iowa city. o líquido escorria por baixo da porta da frente como se alguém tivesse sido destruído ali dentro, e do lado de fora, sua irmã filmava com câmeras escondidas as reações de quem passava. algumas pessoas pararam e uma até cutucou a poça com a ponta do guarda-chuva, mas a maioria seguiu andando. em determinado momento o vizinho do lado saiu e limpou tudo. a obra não oferece nenhuma possibilidade de ação – pode provocar horror, compaixão, repulsa, mas como escreve maggie nelson em the art of cruelty (2011), “não oferece nenhum lugar para onde esses sentimentos possam ir.” cada pedestre só pode seguir adiante e seguir adiante parece abandono, indiferença. fora de vista, mendieta espreita, voyeur do voyeurismo involuntário dos outros. nelson resume: “olhe para este monte de carnificina, sem história clara, sem origem. apenas olhe. agora olhe para os outros olhando.”

Ana Mendieta
a série de slides se chama untitled (people looking at blood, moffitt, iowa) e o filme em super-8 que a acompanha, moffitt building piece. há sangue no chão da cidade e a pergunta não é quem fez isso, e sim por que ninguém faz nada?
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há uma violência específica do doomscrolling: a justaposição de catástrofes e banalidades, de corpos e anúncios, diys, música, meus amigos, genocídio e memes. tudo no mesmo espaço e no mesmo tom, no mesmo tamanho de tela. se aprende a ver sem olhar e a absorver o horror como ruído de fundo. e quando raramente uma imagem interrompe o automatismo e nos força a parar, já não sabemos bem o que fazer com ela.
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minha amiga mais querida da infância era uma menina brilhante e neurótica obcecada com sua aparência de um jeito que aos 11 eu não entendia mas que hoje reconheço como os primeiros sinais de algo muito mais terrível. bulimia e fascínio por gore e uma relação com o corpo que oscilava entre controle e autodestruição. ela dizia ter aprendido a acessar a deep web sozinha; não sei se era verdade mas as fotos que me mandava eram reais. imagens de crianças como nós duas com homens adultos. ela me mandava porque achava as meninas lindas. e eram, pareciam crianças de comercial de shampoo. só que ao lado de homens em poses que não deixavam dúvida sobre o que estava acontecendo. eu não precisava de ninguém me explicando que aquilo estava errado. era violento demais, explícito demais, o tipo de coisa que hoje eu fecharia os olhos pra não ver e que naquela época eu não tive a opção de recusar.
ela não via problema – ou via, e o problema era o que a interessava. a pedofilia não a assustava mais do que qualquer outro horror que ela consumia. pra mim era diferente. eu via aquilo e não dormia. nos afastamos pouco tempo depois mas antes disso passei meses virando a noite pensando nas imagens sem saber o que fazer com aquilo. não tinha vocabulário ou maturidade alguma para processar o que tinha entrado nos meus olhos. era só o peso de ter visto.
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e então mais de uma década depois os arquivos de epstein me devolvem aquilo tudo. nesses últimos dias, documentos do caso têm aparecido no meu feed em meio às coisas que eu gosto — e-mails entre ele e seus associados, a linguagem clínica e transacional com que se referiam às vítimas, as listas, as fotos. quero desviar e não consigo. não parece possível mesmo silenciando todas as palavras sobre isso (o que não fiz, também). continuei scrollando, lendo, vendo e sentindo náusea e compulsão como se existisse um dever autodestrutivo de saber. como se desviar fosse cumplicidade.
reconheci nas fotos uma qualidade específica de violência que se disfarça de algo prazeroso. eu já tinha visto aquelas imagens antes – o mesmo tipo de olhar sobre o mesmo tipo de corpo. o que era algo estranho e desconcertante numa conversa entre pré-adolescentes agora se revela como um documento criminal e como prova de um sistema. como prova de que nada daquilo era incomum, um desvio de um ou dois monstros. no último ano milhares de documentos foram liberados ou vazados por diferentes órgãos do governo dos eua, cada um parasitando o escândalo à sua maneira e nunca pela justiça das vítimas. em dezembro de 2025 o departamento de justiça publicou 30 mil páginas em nome de uma transparência que funciona basicamente como cortina de fumaça: mais de 550 delas completamente tarjadas em preto. entre o que sobreviveu, fotos de homens deitados sobre meninas, abraçados a meninas, com as mãos em seus corpos. homens sorrindo, confortáveis, todos à vontade com a segurança inabalável de quem sabe que está acima de qualquer lei.

é uma indústria e uma indústria precisa de infraestrutura; precisa de motoristas e secretárias e pilotos e advogados e gente que sabe e finge não saber e gente que não quer saber. precisa de um mundo inteiro organizado em torno da premissa de que o corpo de meninas é um recurso disponível. o contexto inteiro produz em mim uma angústia específica: a sensação de que qualquer homem com dinheiro e oportunidade tentaria. que a única barreira entre a maioria dos homens e a pedofilia é a falta de impunidade.
mesmo assim o que dominou a conversa pública não foi a violência sexual sistêmica contra meninas e mulheres, mas teorias sobre o oculto e sobre rituais satânicos. qualquer coisa menos o óbvio. já perdi a conta de quantas análises li sobre o caso que não mencionam misoginia ou patriarcado uma única vez. isso não é uma conspiração sobrenatural… são homens que confundem dinheiro com direito e direito com desejo e desejo com a certeza de que podem ir ao mais extremo possível porque ninguém vai impedi-los. e nomear isso como o que é – violênca patriarcal – continua sendo insuportável demais para a maioria das análises.

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é estranho como a memória funciona por camadas. as imagens da infância nunca se foram e sobre elas foram se depositando outras – e outras e outras. violências de todo tipo, guerras que não acabam, gaza há mais de um ano sendo bombardeada enquanto o mundo assiste. diante de cada nova camada a mesma impotência. às vezes estou no carro ou caminhando na rua e penso em tudo que pode dar errado, tudo que tem dado errado – e as imagens aparecem todas juntas, gráficas, intactas, e se misturam com o que estou vivendo.
[volto a este texto para edição poucas semanas depois da sua última versão e já perdi a conta de quantas notícias passaram a tirar meu sono além dessas. onde eu moro uma adolescente sofreu um estupro coletivo e o caso ocupa tudo – conversas no trabalho, noticiários, o feed de novo. no x.com se fala de bots postando vídeos de pornografia infantil em tweets virais e eu não sei como alguém lida com isso como uma pessoa normal]
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o que eu faço com isso agora? com essas imagens que vi e não pedi pra ver, que agora moram em mim? li diante da dor dos outros (2003), de susan sontag no ano passado porque – cercada por imagens de guerra, violência e sofrimento – queria encontrar alguma resposta sobre o que eu sentia. as perguntas de sontag sobre a ética do olhar deixaram de soar como reflexão e passaram a soar como algo que eu precisava resolver: o que fazer com o que vimos?
o que significa carregar imagens que não pedimos para ver mas que uma vez vistas passam a morar na memória, voltando sempre como pensamento insistente, obsessivo?essa tensão entre a exigência ética do testemunho e o custo psíquico do olhar percorre toda a reflexão de sontag. em sobre a fotografia (1977) ela argumentou que a exposição constante a imagens de sofrimento acaba por nos anestesiar, que de tanto sermos bombardeados por fotografias sensacionalistas nossa capacidade de reagir eticamente diminui. 26 anos depois em diante da dor dos outros ela volta a essa tese e a tensiona, reconhecendo que as imagens podem e devem representar o sofrimento humano, que o enquadramento visual estabelece uma proximidade que nos mantém alertas para o custo humano da destruição. mas a resposta dela continua hesitante: a imagem nos afeta mas será que nos transforma? a compaixão, diz sontag, é uma emoção instável, e precisa ser traduzida em ação, do contrário definha. é a passividade que embota o sentimento, não a imagem em si. as fotografias podem inflamar, mobilizar, ou podem se diluir no fluxo interminável de estímulos e quando isso acontece confundir intensidade perceptiva com responsabilidade ética talvez seja uma das armadilhas centrais do nosso modo de ver.

Ana Mendieta
sontag admite que “a frustração de não ser capaz de fazer nada a respeito daquilo que as imagens mostram pode se traduzir numa acusação contra a indecência de olhar tais imagens” – como se o problema fosse ter visto e não o que foi visto. e reconhece o ciclo paralisante: vejo, sofro por ver, me frustro por não agir, e a frustração me devolve a mim mesma, ao meu desconforto, à minha impotência, e enquanto isso quem está na imagem continua lá. ela escreve que “a indignação moral, assim como a compaixão, não pode determinar um rumo para a ação” e que “se pudéssemos fazer algo a respeito daquilo que as imagens mostram, talvez não nos preocupássemos tanto com essas questões”. a angústia do olhar é um sintoma da impotência e não o contrário.
no final do livro, sontag nos deixa com uma provocação: “deixemos que as imagens atrozes nos persigam. que não esqueçamos o que seres humanos são capazes de fazer – voluntariamente, com entusiasmo, fazendo-se passar por virtuosos”. mas ela mesma tensiona a sugestão que acabou de fazer: reconhece que recordar demais gera rancor, que fazer as pazes significa esquecer, e que a memória precisa ser imperfeita e limitada se o objetivo é ter um espaço para viver a própria vida. mas ela para aí. nos diz para sermos perseguidos e não diz o que fazer com a perseguição. a perseguição é convocada mas permanece sem método: não se explica como viver com os horrores acumulados nem se essa assombração funciona como consciência ou apenas como um desgaste contínuo. somos instigados a ser afetados mas não recebemos um vocabulário suficiente para elaborar isso.sontag escreveu num mundo pré-algoritmo – num mundo em que as imagens atrozes chegavam enquadradas num jornal, num livro, numa exposição, num documentário. havia título, preparação e – mesmo que mínima – uma liturgia do olhar. ela já descrevia com incômodo as imagens de sofrimento ladeadas por publicidade de cremes emolientes, analgésicos e automóveis caríssimos – isso em 2003. o que diria do feed? o que significa deixar que nos persigam quando elas aparecem e desaparecem no intervalo de um scroll, quando a perseguição dura o tempo de um polegar? as imagens dos arquivos de epstein não só me perseguiram como me invadiram. estavam ali entre tweets e reels sem aviso sem moldura sem nada que separasse aquele horror do fluxo ininterrupto do resto.



Moffitt Building Piece, 1973
Ana Mendieta
eu queria um vocabulário para o que acontece entre a imagem e quem olha. em imagens apesar de tudo (2012) georges didi-huberman argumenta contra o que chama de “o inimaginável erigido em dogma” – a ideia de que certas imagens, por não darem conta da totalidade do horror, seriam insuficientes, falsas, inúteis. para ele existe o que a pesquisadora inês barbosa de oliveira chama de cegueira epistemológica – “uma parcialidade da visão desenvolvida no seio de uma cultura, também sempre parcial, e de experiências singulares”. não é simplesmente não saber ver. é algo mais enganoso: a cultura na qual fomos formados produz em nós formas de ver que se naturalizam a tal ponto que deixamos de reconhecê-las como escolhas. vemos sempre a partir de algum lugar – e esse lugar, precisamente por ser o nosso, torna-se invisível.
essa cegueira opera pela armadilha que didi-huberman chama de pseudo-radicalidade do tudo ou nada: ou a imagem mostra a totalidade do real ou não mostra nada. quem exige da imagem que ela seja toda acaba por transformá-la em fetiche – uma imagem parada, substituto que nos poupa do encontro com o real. e é contra isso que ele propõe imaginar apesar de tudo. porque a imagem não é toda: não é nem presença plena nem ausência absoluta, não é “nem tudo […] nem nada.“ se há algo a ver ali é porque há um vestígio, um resto, algo que resiste ao desaparecimento – e é dali que nos convoca a imaginação como trabalho: não invenção delirante mas operação rigorosa sobre o que a imagem dá a ver nas suas próprias lacunas.
operar sobre o caráter lacunar da imagem é recusar a imagem-toda e aceitar que o que temos diante dos olhos é sempre um fragmento – mas que esse fragmento é o que nos convoca a participar, a imaginar, a nos responsabilizar.
quando penso nas imagens que me perseguem, nenhuma delas me mostra a totalidade de nada. são lacunares, fragmentárias, insuficientes. mas é justamente essa insuficiência que não me deixa em paz e que não permite que eu trate aquilo como algo superado. a imagem-fetiche sequer precisa do meu olhar porque suponho já saber tudo sobre ela antes mesmo de vê-la. a imagem-lacuna me convoca para que dela eu participe, para que dela eu seja em alguma medida responsável.
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no segundo capítulo de quadros de guerra (2009), judith butler parte de uma discordância precisa com sontag. sontag sustentava que a fotografia por si só não oferece interpretação, que ela nos afeta mas não nos fornece compreensão. butler recusa essa separação. para ela a fotografia já é interpretação: ao enquadrar a realidade, a fotografia já determinou o que será levado em conta dentro do enquadramento — e esse ato de delimitação é sem dúvida interpretativo, como o são, potencialmente, os vários efeitos de ângulo, foco, luz etc. o enquadramento não é neutro. o enquadramento é a primeira camada de sentido. e isso muda tudo porque se sontag achava que o problema era a imagem ser muda, butler mostra que o problema é anterior: quem decide o que entra no enquadramento já está decidindo o que existe. e o que não é percebido não existe politicamente.
butler mostra como durante o governo bush o estado americano operou uma regulação ativa do campo visual – o que ela chama de cobertura comprometida. jornalistas só podiam viajar em determinados veículos, observar determinadas cenas, enviar para casa determinados tipos de imagem. embora limitar como e o que vemos não seja exatamente o mesmo que ditar um roteiro, escreve butler, é uma maneira de interpretar antecipadamente o que será e o que não será incluído no campo da percepção. transposta para o presente, essa análise é de uma precisão insuportável. o que nos é permitido ver da palestina? quem decide quais imagens chegam e quais são suprimidas? o shadowban funciona como uma versão digital dessa regulação: não há censura explícita, não há decreto, mas há um enquadramento invisível que regula quais realidades se tornam perceptíveis e quais permanecem fora do campo de visão. e nós que achamos estar numa relação visual imediata e incontestável com a realidade somos espectadores de um campo já delimitado sem que a delimitação se torne visível.
só que o enquadramento não regula apenas a visão como também decide quem merece ser lamentado. butler chama esse conceito de vidas passíveis de luto. a pergunta que ela faz não é apenas quem sofre mas por quem é permitido sofrer. existem mortes que viram notícia e mortes que viram estatística e as que não chegam nem a ser estatística, que simplesmente não existem no campo do perceptível porque o enquadramento que as tornaria visíveis nunca foi autorizado. quem conta como humano? quais corpos merecem ser olhados, cuidados, lamentados? quais desaparecem sem que sua ausência sequer seja registrada como perda? “antes dos acontecimentos e das ações representados dentro do enquadramento há uma delimitação ativa, ainda que não marcada, do próprio campo, e, assim, de um conjunto de conteúdos e perspectivas que nunca são mostrados, que não é permitido mostrar.” e quando alguém expõe essa delimitação – o enquadramento do enquadramento – o que acontece é, nos termos de butler, um ato de ver desobediente. é o que perfis como o da @fepal_brasil têm feito: não apenas documentar a destruição em gaza mas expor as condições que tornam essa destruição invisível ou tolerável para o resto do mundo. cada imagem que fura o bloqueio algorítmico é um ato de resistência ao apagamento – porque como escreve didi-huberman, produzir uma imagem foi um poder afirmativo, um ato de resistência política, enquanto rejeitar hoje qualquer imagem transforma-se na impotência do puro esvaziamento.

Ana Mendieta
eu continuo olhando. sigo perfis, leio os relatos, vejo as fotos dos hospitais destruídos das crianças dos corpos no chão e não por voyeurismo. ou pelo menos não acho que seja isso, embora a fronteira entre atenção ética e consumo visual seja mais difícil de delimitar do que qualquer um de nós gostaria de admitir.
sontag escreveu que talvez as únicas pessoas com o direito de olhar imagens de sofrimento dessa ordem sejam aquelas que poderiam fazer algo para aliviá-lo – e que o resto de nós é voyeur queiramos ou não. talvez ela tenha razão, mas butler oferece outra leitura: se existem vidas que não são passíveis de luto então desviar o olhar não é neutralidade, é participação ativa no enquadramento que as torna invisíveis. não olhar é concordar com o enquadramento. “nossa capacidade de reagir com indignação, antagonismo e crítica dependerá, em parte, de como a norma diferencial do humano é comunicada através dos enquadramentos visuais e discursivos.” existem maneiras de enquadrar que mostram o humano em sua fragilidade e precariedade e há enquadramentos que impedem a capacidade de resposta. olhar portanto não é consumo – ou não precisa ser. olhar pode ser uma forma mínima de responsabilização. não a que põe fim na dor do outro mas o gesto de “compreender os exemplos em que a norma destrói seu exemplo, quando a vida humana — uma animalidade humana — excede e resiste à norma do humano”. imaginar diante das imagens – recusar a cegueira epistemológica, recusar o conforto do inimaginável – já é um ato ético. imaginar apesar de tudo, como didi-huberman insiste. é a decisão de não deixar que o enquadramento nos cegue, a escolha de permanecer diante do que dói quando seria mais fácil, tão mais confortável, tão mais agradável só seguir scrollando.
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em povo em lágrimas, povo em armas (2016), didi-huberman analisa a cena das carpideiras no encouraçado potemkin: mulheres que choram ao redor do corpo de um homem assassinado injustamente e cujo lamento, em vez de se esgotar em si mesmo, se converte em cólera e depois em levante. existe uma emoção que sabe dizer “nós” e não apenas “eu”, um sofrimento que não é apenas sofrido mas que se constitui como ação. as carpideiras de odessa não param de chorar. elas choram até que o choro mude de natureza. a emoção não precisa morrer em si mesma mas precisa de outras vozes onde se reconhecer, de um coletivo onde reverberar. eu sei que essa dor não é só minha. eu sei porque encontro os rastros dela em todo lugar. estamos todos sangrando mas só conseguimos falar disso pelo humor satírico ou pela distância crítica e nunca pelo que dói. o luto que eu carrego precisa de um coro.


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há uma pergunta que percorre esse texto inteiro e que eu tenho adiado nomear talvez porque nomeá-la me obrigue a admitir que não tenho resposta.
eu sou uma pessoa excessivamente sensível ou o mundo é brutal demais para o nível de informação que temos?
viver nesse momento histórico com este grau de acesso visual ao sofrimento dos outros dói e dói de um jeito que não sei localizar no corpo. tristeza, raiva e exaustão de ver demais e poder de menos. há dias em que quero fechar tudo. desinstalar os aplicativos. não saber mais. existe uma fantasia poderosa na ignorância voluntária – a ideia de que se eu parar de olhar o que vejo para de existir. que o sangue debaixo da porta é problema do vizinho.
mas não se interessar por política é um privilégio e quem pode dar as costas para as imagens é quem não está nelas. sontag sabia disso – ninguém, após certa idade, tem direito a esse tipo de inocência, de superficialidade, a esse grau de ignorância ou amnésia.
e talvez a pergunta esteja errada. talvez “eu sou sensível demais?” seja uma pergunta que o próprio enquadramento quer que eu faça. num mundo em que o scroll justapõe genocídio e memes na mesma tela, a sensibilidade não é excesso mas é a resposta adequada a uma brutalidade que foi normalizada.

o enquadramento – algorítmico, patriarcal, político – foi desenhado para que sentir pareça patologia e que nomear a violência como violência pareça histeria. a verdadeira cegueira é ver e ter sido ensinada a duvidar do que se vê.
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volto a mendieta porque ela abriu o ensaio e porque de certo modo ela responde à pergunta que eu não consigo responder.
em 1973 o sangue escorria debaixo da porta e as pessoas passavam e algumas olhavam e cutucavam e a maioria seguia e mendieta não estava testando se as pessoas eram boas ou más – estava expondo o mecanismo. a indiferença não é um traço de caráter, é um efeito de enquadramento. nós aprendemos a não ver. somos educados – pelos marcos normativos, pelos algoritmos, pelo conforto, pelo medo – a passar pelo sangue como se fosse outra coisa. água suja… tinta vermelha. problema de outra pessoa. mas a obra não condena os observados. lamenta a compaixão sem direção deles, o luto e a preocupação oferecidos a alguém que nunca vão conhecer, nunca vão poder ajudar. o sangue já está no chão. o dano já foi feito. e o sentimento não tem pra onde ir.
mendieta morreu em 1985 aos 36 caindo 34 andares do apartamento que dividia com seu marido carl andre. ele foi absolvido e as circunstâncias nunca foram esclarecidas. o corpo de mendieta – que ela passou a vida inteira usando como suporte, matéria e linguagem – se tornou mais um corpo de mulher sobre o qual se exerceu uma violência que a sociedade preferiu fingir não ver. mais um sangue debaixo de uma porta em que as pessoas passam.
eu não sei o que fazer com nada disso e não vou fingir que sei. eu não acho mais que o método seja o ponto e talvez a coisa mais honesta a fazer com a impotência seja nomeá-la.
e talvez a impotência não precise ser resolvida e pode ser que ela seja o preço de estar viva para o que acontece. não o mesmo preço – nunca o mesmo preço. entre quem está na imagem e quem olha a imagem existe um abismo que nenhuma teoria atravessa e que nenhuma empatia resolve. a mãe que carrega o filho morto nos braços não precisa da minha insônia nem que eu saiba o nome dela nem que eu escreva sobre o enquadramento que a tornou visível ou invisível. ela precisa que a violência pare. entre isso e qualquer coisa que eu possa fazer cabe o tamanho real da minha inutilidade. eu estou aqui, no meu quarto com a liberdade obscena de poder fechar o app.
eu precisava de alguém que me dissesse que olhar não é obsceno e que a impotência não precisa ser o fim. não li nenhum deles por obrigação acadêmica nem por curiosidade intelectual. apenas para dissecar a dor, dar nome às partes, entender o mecanismo. isso não cura nada mas acho que transforma o insuportável em algo que pelo menos cabe numa frase. e uma frase é algo que eu posso carregar. uma frase eu posso reler às três da manhã quando as imagens voltam. é pouco… quase nada. mas é um método – o único que encontrei pra não enlouquecer com tudo que vejo. eu ainda estou esperando poder dar a esse texto um final menos brutal. eu queria tanto que ele tivesse um. não há como concluir um texto sobre uma ferida que não fecha porque o mundo não para de reabri-la.
não sei se saber muda alguma coisa concreta pra quem está do outro lado da imagem. provavelmente não. mas sei que não saber é pior. que não olhar é pior. que o conforto da cegueira é o que permite que tudo continue exatamente como está. e sei que existe uma diferença – mínima, insuficiente, talvez inútil – entre passar pelo sangue e seguir andando e passar pelo sangue e parar. mesmo que parar não resolva nada. mesmo que parar seja só isso: ficar ali, com o peso do que se viu, sem ter pra onde levar o que se sente. o vizinho de mendieta pelo menos limpou o chão e eu nem isso posso fazer.


Moffitt Building Piece, 1973
Ana Mendieta
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