eu escrevo versões deste texto desde que aconteceu. e a cada uma eu me perguntava: como eu deveria falar sobre ter feito um aborto? devo focar na raiva – do estado, dos homens, do meu ex que tirava a camisinha? posso ser engraçada ou devo me conter e falar só da dor? é permitido que esse relato tenha todas as minhas emoções – o pânico, o alívio, o humor, a culpa, o nojo, a ternura pelas mulheres que me ajudaram – mesmo que algumas pareçam contraditórias ou inadequadas? e de que forma posso ser honesta? existe uma forma correta para contar essa história?
nessa espiral eu tinha também medo de não lembrar direito e confundir a ordem das coisas, esquecer um detalhe que alguém decidisse que era importante. e tinha medo também da própria história – de que alguém lesse que eu transei sem camisinha e parasse ali, de que algum detalhe fizesse parecer que eu pedi por isso. que eu sabia o que podia acontecer e mesmo assim ficava, então o que eu esperava? por muito tempo achei que pra merecer ser ouvida eu precisava ser uma vítima perfeita, com um relato sem furos, sem contradições, sem nenhum momento em que eu pudesse ser responsabilizada pelo que fizeram comigo. hoje aos 25 essa preocupação me parece de outra vida. a história é essa. tem as partes em que eu fui corajosa e as partes em que eu fui idiota e nenhuma delas muda o que aconteceu.
essa semana li que um deputado estadual de são paulo ligado ao mbl foi denunciado pelo ministério público por pressionar a ex-companheira de 22 anos a abortar durante a gestação inteira. sugeriu clínicas clandestinasnum áudio, descreve o procedimento: “praticamente uma sucção, não tem sangue, 20 a 25 minutos, nos jardins, é caríssimo mas é com especialista”. ele é pré-candidato a deputado federal e adota um “forte discurso conservador”.
e eu pensei: se esse homem sabe o endereço da clínica e o preço do procedimento e a duração em minutos e mesmo assim defende o que defende, então talvez o mínimo que eu possa fazer é contar como é quando você não tem acesso a nada disso. quando você não tem o especialista.
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durante um ano e meio eu transei com um homem que se recusava a usar camisinha. são dezoito ciclos menstruais. dezoito vezes esperando o sangue chegar. eu pedia pra ele usar. ficava sem jeito, mas pedia, porque tinha muito medo de engravidar e o coito interrompido não me acalmava. ele dizia que não sentia nada quando usava. eu insistia, ele colocava e tirava no meio do ato. se eu insistisse mais, ele dizia que eu não me importava com o prazer dele, que aquilo o oprimia. um homem que sabia falar bonito sobre consentimento usando a palavra “opressão” pra descrever uma camisinha. sabia falar bonito e ao mesmo tempo transformava a minha insistência em proteger o meu próprio corpo numa questão sobre o conforto dele.
eu o conheci pouco antes de fazer dezoito anos. quando penso nessa época, não consigo entender muito bem o que passava na minha cabeça. a pessoa que eu era ali parece distante demais da que eu sou agora pra eu conseguir reconstruir a lógica dela. eu sei que ela achava que aquilo era amor, que era algo raro, foi convencida disso por ele! sei que cedia porque parecia mais fácil do que brigar de novo. mas o caminho entre esses pensamentos e as decisões que ela tomou tem furos que eu não consigo preencher, mesmo sendo eu mesma.
eu tentei 3 anticoncepcionais diferentes. todos me davam dores fortes nas pernas e eu era orientada a parar. o diu de cobre também era contraindicado porque eu já sofria muito com cólicas. sobrava a camisinha que ele tirava e o medo que ficava comigo. nos pequenos atrasos eu fazia teste de farmácia no banheiro, sozinha. nos maiores, ia ao hospital dizendo que sentia dor e minha menstruação estava atrasada, e eles faziam o beta hcg sem perguntar muito. sempre quando estava perto de descer eu ficava olhando obsessivamente pra minha calcinha, colocando o dedo dentro de mim pra ver se saía pelo menos um pouquinho de vermelho. por favor. qualquer coisa. e quando finalmente descia eu continuava paranoica e pesquisava sobre sangramento de início de gravidez, se existia, se a cor era diferente da menstruação normal, se dava pra confiar no que eu estava vendo ou se meu corpo podia estar me enganando. num desses atrasos comecei a pesquisar como se faz um aborto no brasil. encontrei ongs, clínicas, grupos feministas. salvei todos os links.

eu tinha 18 anos e ele era alguns anos mais velho e mais experiente. o relacionamento era abusivo em todas suas categorias, mas naquele momento eu não usava essa palavra. eu dizia “intenso”, “complicado”. eu já me considerava feminista há anos e sabia nomear o que ele fazia. reconhecia os padrões, tinha lido a teoria, e ficava mesmo assim. naquela época eu já achava algo vergonhoso de se contar.
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quando engravidei eu já tinha feito 19 anos e a gente já tinha terminado. eu descobri que ele me traiu e terminei – e no contexto de tudo que acontecia a traição era um alívio, finalmente um motivo simples de dizer em voz alta. o primeiro mês separados foi horrível. o segundo eu ia à praia, saía com minhas amigas, dormia noites inteiras de novo. mas ele ficava de olho nas minhas redes sociais e percebeu que eu estava melhor e voltou. começou a aparecer na minha casa quando meus pais saíam.
eu o desbloqueei no whatsapp e ele disse tudo que eu queria ouvir – que tinha mudado, que tava trabalhando em si mesmo, que tava limpo, que ia ser diferente. e eu acreditei porque a gente acredita. é mais fácil do que aceitar que acabou. aí ele se irritava com algo e me bloqueava. me desbloqueava com palavras bonitas e me bloqueava de novo quando eu cedia e ficava carinhosa. era um ciclo e eu estava envolvida demais pra ver de fora.
numa dessas vezes que ele me visitou a gente transou e ele gozou dentro de mim. eu não senti na hora. quando acabou eu fui tomar banho e ele foi embora e me bloqueou. não disse nada. demorou mais de um dia pra me desbloquear e sugerir que eu tomasse uma pílula do dia seguinte. mandou a farmácia entregar na minha casa e eu tomei assim que chegou.
não funcionou.
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o que vem a seguir é um trabalho de autoficção… eu tenho uma imaginação muito específica.
um mês depois daquela t a menstruação não tinha vindo ainda. uma semana a mais, nada. mais uma semana e eu estava paralisada, sem conseguir fazer nada. com mais de duas semanas de atraso contei pra minha mãe e fomos juntas ao hospital.
a espera pelo resultado do beta hcg durou uma hora. sentei do lado da minha mãe, deitei no ombro dela, tremia a perna, segurava o choro. quando me chamaram e entrei na sala, a médica me deu parabéns. disse que muitas meninas são mães jovens e gostam muito. eu estava visivelmente em pânico, olhos molhados, mãos suadas, e parabéns foi tudo que ela pode me dizer. ela era jovem, algo próximo da minha idade de agora. talvez tenha sentido pena mas não existe protocolo nesse país que permita outra frase.
meu pai estava viajando a trabalho. meu ex também, e ficaria um bom tempo fora. era eu, minha irmã e minha mãe. na porta do hospital, esperando o uber, falei pra ela que não ia continuar. ela ficou resistente. e eu fiquei com medo. não dela, mas de estar sozinha nisso. cheguei em casa e abri os links que guardei durante todos aqueles meses. sempre segurando o nó na garganta porque sabia que se eu chorasse eu desabaria de vez. eu precisava resolver isso e acalmar minha mãe e minha irmã.
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o melhor caminho que encontrei foi um grupo do [[[[[[[[ chamado “♡♡♡ ♡♡ ♡♡♡♡♡♡♡”. é importante que eu use códigos porque o grupo ainda existe.
uma mulher sob o codinome m. vendia os comprimidos e tinha uma rede de enfermeiras que dava suporte por mensagem. o grupo era cheio de relatos de mulheres contando em detalhes como foi pra elas. o quanto doeu, quanto tempo levou, o que sentiram. algumas transbordavam emoção. eu lia tudo. tinha relatos de quem deu certo e relatos de quem caiu em golpe, recebeu pílulas falsas que não fizeram nenhum efeito, e a gravidez continuou avançando e estavam ali tentando de novo. muitas eram pobres, já tinham filhos, estavam completamente desamparadas. tinha mulheres que já estavam nas últimas semanas em que o remédio ainda podia funcionar, desesperadas, sem saber se iam conseguir a tempo. e mulheres que fizeram depois desse limite e tiveram complicações muito piores. eu lia tudo com o coração acelerado.
o tempo era a coisa mais assustadora. cada dia que passava era um dia a mais de gravidez e um dia a menos de margem, e eu tinha pavor de receber pílulas falsas, do sedex atrasar, do remédio não funcionar, de perder a janela, de ter complicações. as mulheres que já tinham feito e dado certo não iam embora. ficavam no grupo pra acolher as próximas, respondiam mensagens de madrugada, acalmavam, diziam “comigo foi assim, vai ficar tudo bem”. e as que estavam prestes a fazer, como eu, ficavam ali jogando conversa fora umas com as outras, falando de qualquer coisa, tentando não surtar. era uma rede de mulheres cuidando umas das outras porque ninguém mais cuidava delas.
uma amiga da escola tinha usado o mesmo contato meses antes. ela achou que estava grávida do namorado e veio falar comigo – sabia que eu transava desprotegida, sabia dos meus sustos. eu ajudei ela a pesquisar o que fazer. no fim ela precisou e funcionou. abortou com cinco semanas na casa de uma amiga cuja irmã mais velha já tinha feito. a mãe não soube de nada. quando contei o que eu estava vivendo, ela disse que depois que acabou percebeu que não precisava ter sentido tanto medo desnecessário. ela me mandava áudios com sua voz de menina doce e jovem dizendo para eu confiar ia dar tudo certo.
comprei oito pílulas por 900 reais. metade meu dinheiro, metade da minha mãe. elas vinham de outro estado por sedex, e a quantidade correspondia às semanas de gravidez. eu tinha sete mas comprei oito contando o tempo de envio.
esperei quatro dias. fiquei na cama assistindo acho que it’s always sunny in philadelphia com minha irmã e lendo os relatos do grupo, tentando absorver a calma das outras. às vezes lia sobre sintomas e sobre o que os hormônios fariam com o meu corpo a cada dia que passava.
eu dormia o dia inteiro. um sono denso, de outro mundo, que me puxava pra cama a qualquer hora. eu só descobri que era da gravidez porque minha mãe falou. passei esses dias como uma bela adormecida de camisola, caindo e acordando de cochilos sem noção de hora, e acho que isso me salvou de surtar completamente. eu me sentia anestesiada, meio sob efeito de alguma coisa, como se o meu corpo tivesse decidido me sedar pra eu aguentar a espera. entre um sono e outro eu comia uma quantidade obscena de pizza de chocolate – o que era estranho porque naquela época eu não gostava de doce. eu não gostava de doce! e de repente eu estava ali às onze da noite pedindo a terceira pizza de chocolate da semana como se fosse uma necessidade fisiológica, porque era. num outro dia pedi meu subway favorito e quase vomitei com o cheiro da maionese temperada. o mesmo lanche que eu comia toda semana. o mesmo cheiro. mas o meu corpo tinha virado outra coisa sem me avisar e agora tinha opiniões próprias sobre molhos.
nesses quatro dias minha mãe e minha irmã dormiam comigo. a gente botou um colchão de casal no chão do meu quarto, do lado da minha cama de solteiro, e as três dormiam ali juntas toda noite. eu não queria ficar sozinha porque sozinha eu pensava demais. e acho que minha mãe sentia falta do meu pai que estava viajando e também não queria ficar sozinha no quarto deles. então ficávamos as três, nessa festinha do pijama que durou a semana inteira. era meio deprimente e meio aconchegante. eu olhava pra elas da minha cama e achava triste e bonito ao mesmo tempo.
eu dormia, acordava, comia, dormia de novo. foram os dias mais autoindulgentes da minha vida. e eu sei que essa palavra soa estranha pra descrever a véspera de um aborto clandestino, mas era isso. eu só me deixei levar: demorava nos banhos, não respondia mensagens, não fazia nada que exigisse ser uma pessoa funcional. só existia ali, de camisola, entre um sono e outro, me entregando a tudo que o corpo pedia sem questionar. essa foi a minha forma de me cuidar antes do que vinha, ou talvez os hormônios estivessem simplesmente tomando conta e eu só estava obedecendo. finalmente entendi as grávidas que sentem desejo de comer tijolo.

de noite, nos poucos momentos em que eu estava realmente acordada, eu me olhava no espelho e ficava maravilhada com os meus peitos, que já ficavam mais bonitos quando eu menstruava – inchavam um pouco e eu gostava. mas agora era mais um mês inteiro de hormônios acumulando no corpo, e eles estavam crescendo mais a cada dia. eu nunca tinha visto meu corpo assim e provavelmente nunca mais veria. então fiz o que qualquer pessoa faria na minha situação: coloquei um bralette de renda e fiz um ensaio de fotos da minha gravidez de oito semanas às duas da manhã. a barriga ainda não tinha crescido, só estava durinha, diferente. eu passava a mão e sentia a rigidez e pensava: tem uma coisa aí dentro. é estranho – é muito estranho – sentir curiosidade e até uma espécie de fascínio pelo que está acontecendo no seu corpo quando você já decidiu que não quer que continue. mas eu sentia. uma parte de mim queria entender aquilo antes de encerrar. registrar, guardar. eu olhava no espelho e pensava: então é isso. e depois abria o site dos correios pela vigésima vez no dia pra ver se o rastreamento tinha atualizado.
nesses dias, falei também com minha prima mais velha e ela foi a pessoa mais doce comigo naquele momento. disse que estaria comigo no dia, e perguntou se podia trazer a cunhada, que já tinha passado por isso. eu disse que sim, é claro, por favor.
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as pílulas chegaram numa manhã bonita, sol com um frio gostoso. dentro da caixa tinha um envelope com os comprimidos e um vibrador roxo. um mimo da m. eu segurei o vibrador e fiquei parada por uns segundos sem saber o que fazer com aquilo na mão e ri. era o meu primeiro! minha mãe estava do lado e eu fiquei com uma vergonha tão desproporcional diante de tudo que estava acontecendo que isso me fez rir mais ainda. uma risada de quem dormiu direito e está prestes a cometer um crime no sofá da sala e acabou de receber um presente erótico pelos correios. achei fofo, na verdade. achei a coisa mais fofa e mais absurda do mundo. alguém que eu nunca vou conhecer embalou esse pacote pra mim e pensou “ela vai precisar de algo bom depois”. um vibrador roxo junto com um medicamento que a oms lista como essencial desde 2005, comprado num grupo do [[[[[[[[, entregue por sedex, porque no brasil ele é contrabando. na argentina, colômbia, uruguai, portugal, frança, uma mulher vai a uma unidade de saúde e resolve isso com um médico, legalmente. eu resolvi com a m., num pacote que veio com um vibrador e me senti genuinamente cuidada pela primeira vez em semanas.
naquela tarde havia cinco mulheres no apartamento: eu, minha mãe, minha prima, a cunhada dela e minha irmã que ficou no quarto. a gente combinou assim porque ela estava ansiosa e sentia que não saberia ajudar, mas de vez em quando aparecia na porta pra ver se eu estava bem. a enfermeira me acompanhava pelo whatsapp.
o procedimento começou com duas pílulas embaixo da língua e duas no canal vaginal, amassadas com um pouco de água e colocadas com uma seringa. deitei no sofá com as pernas pra cima para nada sair do lugar.
tudo veio rápido. enjoo, suor, cólica, dor de barriga. lembro de olhar pra cima e ver as três em volta de mim, alisando meu cabelo e segurando minha mão. a cunhada foi me contando como foi o dela pra me distrair – levou mais de doze horas, estava sozinha, dormiu no meio e acordou sangrando e teve que ir no hospital fazer curetagem. a naturalidade que ela falava me acalmava. lembro dela fazer massagens na minha barriga dizendo que ajudaria a sair mais rápido. não sei se isso é verdade mas me ajudou com a dor.
depois de umas quatro horas eu não aguentava mais. a dor de barriga era a coisa que eu mais sentia no meio de tudo. fui pro banheiro – precisava ir e também já era hora da segunda rodada, de qualquer forma. tomei banho rápido e tomei os quatro comprimidos restantes: dois na língua, dois na vagina. em uns dez minutos a cólica ficou insuportável e eu me sentia extremamente fraca, tonta. eu deveria ir pro chuveiro quente e ficar de cócoras pra ajudar a expulsão, mas antes de chegar lá senti meu corpo resolver sozinho. corri pro vaso, sentei, e senti algo sair.
era o saco gestacional, e junto, uma coisa do tamanho de um grão de feijão. mandei foto pra enfermeira. ela disse que era o embrião.
eu olhei. é estranho dizer isso mas fiquei olhando por um tempo. era tão menor do que eu imaginava. todo o medo, a espera, as horas de dor – e era desse tamanho. nesse momento a náusea sumiu e a dor sumiu, de um segundo pro outro.

fui pro chuveiro pra ajudar a sair o que faltasse. fiquei alguns minutos agachada sentindo a água quente em mim, tão exausta. saiu mais sangue, tomei banho, saí do banheiro e minha irmã reapareceu. estávamos animadas para pedir mais uma pizza de chocolate e voltar para it’s always sunny.
na manhã seguinte eu acordei cedo pela primeira vez em semanas. meu pai chegaria de viagem a qualquer momento e eu ainda não tinha contado nada pra ele. eu planejava conversar quando ele chegasse, mas acordei com minha mãe já tendo contado. ela mandou mensagem no grupo de whatsapp da família contando tudo que aconteceu e se posicionando contra. eu precisava do apoio dela como ela tinha dado até ali e de repente ela estava me entregando e me condenando ao mesmo tempo. briguei com ela. fiquei muito magoada.
meu pai respondeu com carinho. não julgou. chegou em casa preocupado e ficou comigo. queria ter guardado essa conversa porque não lembro dos detalhes, só do alívio. eu falava sobre tudo isso com eles de uma forma meio impessoal, apática – parecia explicar uma situação de logística e não um trauma causado por minhas fraquezas (de sair do relacionamento, de dizer não). as vezes que chorei na frente deles foram quando cheguei no limite e não dava mais pra segurar. eu nunca quis preocupá-los. nunca quis deixar transparecer que eu também não sabia muito bem o que estava fazendo sobre isso tudo.
nesse dia comecei a tomar a água inglesa que foi indicada pra ajudar o útero a expelir o que faltasse. as cólicas que vieram foram as piores da minha vida – muito piores que as do procedimento. pela primeira vez eu chorei. e chorei muito, tremia de dor até que tomei um remédio pra dormir e deitei no colo da minha mãe. ela ficou ali, com a mão no meu cabelo.
eu penso hoje que minha mãe falou aquilo tudo por medo. medo da reação do meu pai, medo de parecer cúmplice. porque apesar de tudo que disse naquela mensagem, no mesmo dia ela estava ali, cuidando de mim enquanto eu chorava de dor. é uma mãe contraditória e maravilhosa e eu perdoo tudo.
enquanto isso, ele estava numa viagem mandando mensagens bonitas. que ia ficar comigo quando voltasse, que ia me pagar os 900 (demorou quase um ano pra pagar). quando voltou namoramos mais um mês até eu terminar de vez. e eu sei que é previsível, mas vale registrar que o homem que me engravidou seguiu vivendo normalmente enquanto eu sangrava no sofá, e que quando ele voltou eu ainda o aceitei por mais 30 dias. porque é isso que esse tipo de relação faz com a gente.
mas eu preciso dizer mais uma coisa sobre isso: o ex abusivo é só uma camada a mais de dor nessa história, não é a história. se ele fosse um namorado bom, presente, que tivesse segurado minha mão e pago sua metade e ficado comigo no sofá – essa história ainda seria revoltante. eu ainda teria comprado um remédio por um grupo do [[[[[[[[. ainda teria feito em casa, com uma seringa, seguindo um tutorial pelo whatsapp. ainda teria corrido o risco de ser presa. o relacionamento ser abusivo torna tudo pior, mas o que torna tudo inaceitável é o país em que eu vivo. uma mulher num relacionamento saudável que decide interromper uma gravidez no brasil passa pela mesma clandestinidade, o mesmo medo, a mesma solidão.
fui a uma emergência ginecológica nos dias seguintes. na espera, vi uma menina ser levada numa cadeira de rodas chorando enquanto um rastro de sangue se formava atrás dela pelo corredor. ela não estava sozinha – tinha gente com ela, gente preocupada – e vieram limpar. mas a cena me deixou triste, e eu não tentei entender o que acontecia na hora. só fiquei olhando.
quando me chamaram, inventei que minha menstruação tinha atrasado semanas e que tive um sangramento forte e desmaiei de dor – minha tentativa de descrever um aborto espontâneo sem parecer que eu sabia demais sobre o assunto, sem usar nenhuma palavra que entregasse que eu tinha pesquisado, lido relatos, que eu sabia exatamente o que tinha acontecido. é um equilíbrio estranho: você precisa ser convincente o suficiente pra conseguir atendimento e ignorante o suficiente pra não levantar suspeita. consegui um ultrassom transvaginal no mesmo dia. a médica foi gentil, me avisou que meu útero estava limpo e que ele era retrovertido. retrovertido! eu já tinha feito esse exame antes e ninguém nunca tinha me contado que meu útero é torto. eu fui a uma emergência ginecológica investigar se meu procedimento clandestino tinha dado certo e saí de lá com uma informação nova sobre o meu próprio corpo que explicava anos de dores insuportáveis.
um mês depois, numa consulta de rotina com outra médica, segui o mesmo roteiro: atraso, sangramento, dor. as mesmas palavras medidas, o mesmo cuidado de não saber demais. só que dessa vez não funcionou igual. essa médica me examinou com rispidez, foi grosseira, fria, não perguntou como eu estava, não perguntou nada. a mesma história que na emergência me rendeu uma médica gentil e um diagnóstico de útero retrovertido aqui me rendeu um exame que machucou meu corpo. saí chorando.
eu penso nessa médica às vezes. se ela sabia. com certeza sabia. e vejo que esse é um efeito muito cruel de tudo isso: o lugar onde você deveria ser cuidada pode facilmente ser o lugar onde você é punida. a médica não precisa te denunciar pra te castigar. basta o jeito que ela te toca. basta não perguntar nada. basta te tratar como se você merecesse a dor.
em todo o processo, do começo ao fim, ninguém do sistema de saúde me acolheu de verdade. a médica gentil foi gentil por acaso e não seguindo um protocolo. a única pessoa que me perguntou como eu estava, semanas depois, de propósito, foi a enfermeira do grupo do [[[[[[[[. mandou mensagem. eu disse que tava bem. ela mandou um áudio caloroso e um coração.
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eu senti culpa. eu preciso dizer isso porque se não disser o relato fica desonesto.
nos dias seguintes do procedimento eu, feminista, informada, certa da minha decisão, me olhei no espelho do banheiro e pensei em deus. não tenho religião, nunca realmente acreditei em nada, e mesmo assim pensei em condenação. o corpo vazio parecia errado. o espaço onde uma coisa estava e não está mais ficou latejando, me agoniando por dentro – fisicamente e por consequencia emocionalmente. é difícil separar as duas coisas.
a culpa passou não sei quando. o que ficou por mais tempo foi raiva. do fato de que ele – que tirava a camisinha, que gozou em mim sem avisar, que mandou entregar uma pílula e sumiu – não cometeu crime nenhum. na lei, o crime é meu. o nome dele não aparece em lugar nenhum.
e quando eu penso no que eu fiz – no que aconteceu de fato, no meu corpo, naquela tarde –, penso que eu forcei uma menstruação. só isso. o remédio contrai o útero e o útero expulsa o que tem dentro e você sangra. é uma menstruação atrasada que precisou de ajuda pra vir! quando, entre amigas, o assunto chega em sexo, em algum momento sempre chega no anticoncepcional – qual você toma, os efeitos colaterais, o medo de engordar, de dar trombose, a pílula que esqueceu, o diu que saiu do lugar. é uma conversa normal. é uma conversa sobre controle de fertilidade, e às vezes o controle falha. eu tentei três anticoncepcionais e meu corpo rejeitou todos. eu vivia num cenário infeliz em que ele se recusava a usar camisinha e a pílula do dia seguinte não funcionou. quando tudo falha, o que sobra? sobrou o comprimido que faz o meu útero fazer o que ele já faz todo mês, só que dessa vez precisou de um empurrão. e isso é o que querem chamar de assassinato. eu não consigo entender.
tem um episódio de girls, o segundo da série, “vagina panic”, em que a jessa acha que está grávida e decide abortar. e o que eu amo nesse episódio é que mesmo sem ter o melhor desenvolvimento no assunto, sem o melhor vocabulário (imagino que se fosse lançado hoje seria diferente), ele me mostrou uma realidade paralela em que eu poderia resolver minha questão com segurança, jogando conversa fora com as minhas amigas numa sala de espera. também que não existe a emoção certa, a reação adequada, o nível correto de sofrimento. e é muito engraçado porque no fim a jessa dá bolo nas meninas que estão esperando por ela na clínica e a marnie, que marcou a consulta, diz it’s a bummer because she ruined it. coisa de outro mundo mesmo.

e é bom ver isso porque a culpa aleatória que eu sinto às vezes sobre tocar nesse assunto me deixa tão estranha. contar pro meu namorado atual, pra minha nova analista, ou quando o grupo de amigas da faculdade tá falando sobre gravidez e eu fico ali decidindo se eu falo ou não. eu sinto a ansiedade de quem está confessando um crime, porque meio que é isso mesmo que eu tô fazendo. cada vez que abro a boca sobre isso eu estou tecnicamente confessando um crime, e é por isso que na maioria das vezes eu não abro.
lembrei de outro momento em que me reencontrei com o assunto, aos 23, quando li o acontecimento da annie ernaux sem saber nada sobre o livro. era minha primeira leitura dela e fui completamente pega de surpresa: era um relato sobre o aborto que ela fez aos 23 na frança dos anos 1960, quando a prática ainda era crime lá. pela primeira vez eu vi num livro de verdade algo parecido com o que eu tentava colocar em palavras nos meus relatos impublicáveis.
o livro quase não tem emoção, diferente do que a gente espera. não tem choro, só os fatos e o tempo passando devagar. ela conta como foi ao médico e ele receitou um remédio que na verdade era antiabortivo, fingindo que estava ajudando. perguntou pra todo mundo e ninguém sabia – e depois, quando já era tarde, vários apareceram dizendo que conheciam alguém que poderia ter ajudado antes. tentou resolver sozinha com uma agulha de tricô e não funcionou. acabou encontrando uma faiseuse d’anges (fazedora de anjos) que fez o procedimento com uma sonda no próprio apartamento. deu errado e ela quase morreu de hemorragia. foi parar na emergência de um hospital onde um médico gritou com ela enquanto a examinava – e depois se arrependeu, porque não sabia que ela era universitária e teria tratado diferente se soubesse antes. o hospital registrou como espontâneo pra ela não ser processada. e durante tudo isso o cara que a engravidou não demonstrou nenhum interesse sobre isso tudo. ela continuava indo pra faculdade, fazendo provas, vivendo por fora enquanto por dentro era consumida por aquilo.

ela escreve que desde que começou a ter prazer, aos 14, nunca mais se privou, e que a gravidez parecia consequência quase inevitável dessa liberdade. chama o que crescia dentro dela de “isso”, nunca de filho. e fala de classe: ser a primeira da família operária a entrar na universidade e engravidar era, nas palavras dela, o fracasso social em pessoa.
as nossas experiências práticas foram muito diferentes – ela estava com três meses, usou uma sonda, quase morreu; eu estava com oito semanas, usei comprimidos e comi chocolate depois. mas a dinâmica é a mesma, a solidão e o desamparo são os mesmos. os médicos ignorantes, o namorado que some, o tempo que se deforma e vira uma coisa que só existe em função daquilo. a misoginia não muda de década, e o que mudou entre 1963 e 2019 foram as mulheres. eu tinha o grupo, a m., as enfermeiras, minha família, amigas que já tinham passado por isso. e não tive dúvida nenhuma! eu era extremamente jovem, não tinha entrado na faculdade, não tinha realizado nada do que queria pra mim e o homem que causou aquilo era alguém que eu estava tentando tirar da minha vida e falhando. ter um filho com ele seria me acorrentar a ele pra sempre.
a diferença é que o caminho dela quase a matou e o meu não. e pra mim isso é mérito das mulheres que montaram uma rede clandestina de cuidado porque o estado se recusou a montar uma legal.
ainda vivemos na ilegalidade – e regredindo. em 2024 a câmara aprovou por 317 votos um projeto que dificulta o aborto legal pra crianças estupradas.
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as versões desse texto mudaram porque eu mudei, e muito. a garota de dezenove sentia coisas que a mulher de 25 e meio não sente mais. provavelmente aos 30 eu vou ler isso e querer reescrever tudo – achar que fui sem noção demais ou que devia ter falado mais sobre uma coisa e menos sobre outra. tudo bem, o texto é esse agora e eu sou essa agora.
o que não mudou é o medo de contar, e agora que olho pra trás essa é a parte que mais me pega. não o terror de todo o procedimento, não a dor, e sim saber que o silêncio que me protege é o mesmo que isola a próxima mulher que vai passar por isso sem saber o que esperar, sem saber que tem gente do lado dela, sem saber que centenas de mulheres ficam num grupo do [[[[[[[[ de madrugada dizendo “vai ficar tudo bem”. eu mesma, depois de tudo, comentei num grupo (privado, só com mulheres, com adms atentas) que tinha um contato confiável e que quem precisasse podia falar comigo. por uns dois anos recebi mensagens toda semana de moças que eu não conhecia pedindo ajuda, tirando dúvidas, querendo saber como foi. e toda vez eu recontava essa história do zero. nunca me incomodei de revivê-la se isso significasse que faria alguém sentir menos medo. eu não quero que ninguém passe por isso achando que está sozinha. mas como é que ela vai saber se nenhuma de nós pode falar?
de qualquer forma, qualquer simetria com a realidade talvez seja proposital, meio milhão de vezes por ano, eu acho.




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