mosquito
“’cause I just had a dream I was dead
and I only cared ‘cause I was taken from you.”
(mosquito, pinkpantheress, 2023)
mosquito surgiu como um exercício de uma disciplina eletiva da faculdade chamada “prática e experimentação em cinematografia”, na tentativa de realização de um experimento que manifestasse o sentido da visão. há cerca de um mês do prazo de entrega, me vi sem ideias do que realizar. durante um banho, porém, tive uma ideia simples: filmar a júlia, protagonista do vídeo, matando mosquitos.

o ato de matar um mosquito envolve muito da visão, e propõe, também, uma sinestesia com o tato. a procura incessante por um elemento que aparece, desaparece e reaparece rapidamente no ar nos confunde no espaço e nos animaliza, dando espaço a um instinto primitivo, de caça, que só chega ao fim no contato entre uma mão e outra, ou entre esta e a parede. evidencia-se uma pulsão que se torna não apenas uma obsessão, mas uma necessidade.

realizado com 3 câmeras distintas (uma canon eos rebel t4i, uma gopro hero 4 e uma cybershot), montei apenas uma decupagem com 12 planos de referências, bem distintos entre si, para a gravação – de cerca de duas horas por uma equipe de cinco pessoas, além dos dois atores. a maior base referencial foi o curta amphetamine (sonbert, 1966), de onde tirei a inspiração para a cena inicial do beijo e as transições por meio do blur. nessa primeira parte, busco um certo anonimato dos atores, não evidenciando seus rostos e estourando a luz. quando júlia é atormentada pelo mosquito, porém, sua face é mais destacada, ainda que sempre em fuga, ora embaçada, ora não. as câmeras funcionam como câmeras de vigilância, sempre atentas às ações, numa espécie de voyeurismo. o movimento da câmera com os atores permite uma aproximação maior com a encenação, integrando-se à intimidade, e a câmera estática relembra o caráter observativo, sempre espiando as figuras representadas.

o trabalho, ainda que tenha sido em sua concepção um exercício estético-sensorial, sem muitos objetivos narrativos e/ou significativos, utiliza-se de elementos obsessivos para sua construção. a imagem ruidosa e embaçada reforça as dificuldades de todas as ações, e o final, visual e sonoro, traz um alívio após a opressão causada pelas representações. a trilha sonora, desde a idealização, utilizaria um sample da música mosquito, e pedi a meu amigo cristian realizá-la – que a fez com maestria. na música da pinkpantheress, a artista explora sua relação com dinheiro, evidenciando o sentimento obsessivo causado por seu acúmulo. para ela, o dinheiro tornou-se um ídolo, e seu interesse por outras coisas esvaiu-se. aqui, percebemos duas relações de desejo que se tornaram obsessões: entre os próprios amantes e sua presença física (mais específica, o beijo) e o ato de matar mosquitos. há uma ligação passional obsessiva entre o casal que só é interrompida pela aparição do mosquito – que gera outro desconforto, outra fixação. para retorno à normalidade do romance, o inseto deve ser exterminado.
ficha técnica

direção, câmera, montagem e cor
vinícius crepaldi (@viniciuscrepaldi)

júlia figueiró
(@_figueiro)
enzo chingotti
(@enzochngt)


assistência de direção e câmera 2
taly blinder
(@tatablinder)
câmera 3
estácio cerqueira (@estaciocerqueira)
trilha sonora
cristian malinoski (@unomille94)
figurino e making of
becca zuccoli
(@beccazuccoli)
making of
pedro vidal
(@pedroabvidal)





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