esse mês a lena dunham lançou o famesick, seu segundo memoir. já estamos lendo e planejando muita coisa sobre ele aqui na blush. quem lê a blush desde o começo sabe o que girls significa pra gente……e por causa de tudo que tem acontecido com o lançamento, ficamos emocionadas o suficiente pra fazer mais um rewatch da série <3.
nos juntamos e chamamos amigos (heitor e julia l.) pra cada um escrever sobre seu episódio favorito. o engraçado de girls é que a série se transforma a cada rewatch…. você volta num episódio que te marcou e de repente está tentando entender por que. por que isso mexeu tanto comigo? o que faz esse episódio ser tão especial?…… quando vimos já tinham 10000000 caracteres escritos.
ok vamos à lista :3
the panic in central park
(s5e6)

eu não preciso de nenhuma das minhas coisas. eu odeio todas as minhas coisas.
a marnie é a personagem de girls que ninguém escolheria ser… chata, crítica e refém de padrões que ela mesma criou. quando reassisti a série aos 23 eu ria dela mais do que de qualquer outra, com a familiaridade (e o pânico) de quem reconhece os próprios piores instintos em alguém. the panic in central park é o episódio que me deixou soft sobre ela. o único bottle episode dedicado a ela – e como todo bottle episode bom, tem a estrutura de um conto e parece um sonho febril. a lena dunham escreveu inspirada em the panic in needle park, o filme de 71 com al pacino sobre dois viciados correndo por ny – marnie sai de casa depois de uma briga com o desi e reencontra o charlie, o namorado fofo da s1, agora irreconhecível. o pai morreu e esse trauma desfez a pessoa que ele era. o episódio dá pra ela o que toda pessoa romântica sempre quis que acontecesse, tudo numa noite: um vestido vermelho de paetê num brechó, uma identidade inventada na hora (magita perez, escort de luxo), um barco roubado no central park, a aliança entregue a um assaltante, uma dança, um reencontro mágico. e por uma noite a gente vê ela livre. e o que mais me encanta nesse ep é como ele mostra com tanta beleza a sensação de que uma versão alternativa da sua vida existe ao seu alcance. eu tenho 25 anos e meio, a mesma idade que a marnie diz ter nesse episódio e eu também tive um reencontro desse. alguém com quem eu me sentia engraçada de novo – ele ria de tudo que eu falava e me levava a lugares que eu não iria sozinha. era uma relação doomed e as coisas não eram como antes. mas pude acessar uma parte de mim que a vida adulta tinha soterrado e que na época eu achava que tinha morrido. a manhã chega, como sempre chega. no banheiro, uma menina que ela nunca viu (julia garner, perfeita em 2min de tela) fala sem muito contexto: “i can’t have one more fantasy busted open”. marnie volta descalça e sem aliança e pela primeira vez na série inteira parece alguém com dignidade. de vez em quando aparece no x uma edit das cenas com uma música da phoebe bridgers e me dá vontade de chorar. eu amo a marnie.
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what will we do this time about adam?
(s6e8)

vou para casa escrever e tentar dormir. e você?
posterguei o quanto pude a escrita sobre algo que eu literalmente escolhi. meu sinal para começar foi uma pequena estrela do minha maquiagem da festa de sexta que brilhava no chão. afinal, todos querem ser a voz de uma geração. é difícil falar do que deu errado e, mais ainda, do que deu certo. pelo menos por um tempo. em what will we do this time about adam, a premissa é simples: os ex-namorados hannah e adam se encontram. do jeito mais mundano possível, numa manhã quente em um mercadinho. e é aquela sensação de que o tempo passou mas que eles ainda são os mesmos, as mesmas piadas, conversas e olhares, mas não dura muito tempo. porque é complicado viver na iminência do outro te decepcionar, e ele vai, porque já o fez. eles transam. e é bom como das outras vezes, reconfortante estar com alguém que te conhece tão bem. mas, há algo novo, hannah está grávida e adam se apega a esse detalhe. ele começa a planejar com ela a vida dos três juntos, as coisas que eles têm que comprar, as que ele pode construir e a casa que eles podem morar. é como quando eu reencontrei anos depois no acaso matutino a pessoa que é tipo meu adam. nossos cabelos estavam maiores e o piercing que me faltava na barriga era o que ele tinha agora na sobrancelha. e ele ficou fascinado com a ideia de cuidar de mim agora que eu tinha duas ists para apimentar nossa vida. ele queria ir nos exames (mas eram só dois a cada ano), em como seria nossa vida sexual (só usar uma camisinha) e em planejar como seria uma possível gravidez (ele era mais velho que eu, obviamente). mas, assim como hannah, não era com ele que eu gostaria de fazer nada disso, nem sei se queria fazer isso com alguém. de noite numa lanchonete, hannah não consegue mais responder adam. ela chora e eles ficam em silêncio. ela pergunta o que ele vai fazer pelo resto da noite e ele responde que talvez vá no mercado e ela diz que vai escrever e tentar dormir. então, eles não fazem nada disso: adam volta para seu apartamento e jessa lhe espera na janela, já hannah, está deitada acordada na cama. a fantasia tem de acabar, é preciso crescer.
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não posso entrar no mar a menos que esteja menstruada.
“The demands of other people do not dissolve; they only multiply. More and more complex, more difficult. Which is another way, she thinks, of saying: more life, more and more of life.” ― Sally Rooney, Intermezzo
É sempre muito louco pensar nas críticas — black lashes — que a série recebeu na época de lançamento, eu não assistia, fui começar a assistir um pouco depois, mas é engraçado lembrar que na época eu assistia o defasado “Pipocando” e lembro muito do vídeo “10 piores séries da história”, alguma coisa assim, no qual eles citavam Girls, e falavam que a protagonista, Hannah, falava muito de si mesma – um sintoma de uma cultura que espera que personagens femininas sejam sempre perfeitas e polidas.
esse episódio é tipo um Vanilla Sky, só que muito mais genial. cada vez que eu assisto, percebo uma coisa nova ou interpreto as demandas delas de outra maneira. marnie arquiteta o final de semana perfeito, com o intuito de forçar e fabricar momentos de cura e conexão da amizade delas, a hannah estraga os planos ao chamar o elijah e os amigos dele, que por coincidência se encontravam na mesma cidade. as vezes eu revejo e entendo mais a hannah, as vezes a marnie, e as vezes a shoshanna, quando ela surta com todo mundo.
no fim, é mais sobre entender que a mágica de se relacionar é perceber que o outro não é você, que não importa o quanto você tente, você não consegue prever esse outro universo, e a dor da frustração pra tentar achar uma resposta só vai machucar mais.
eu tenho pensado muito em amizades, e na complexidade desse tipo de relação que paradoxalmente parece ser mais fácil. também penso, em comparação, que brigas catárticas e frequentes são mais normalizadas em relações românticas. ja li por aí que no fundo elas não se gostam, são falsas, etc. pra mim, todas essas são maneiras de reduzi-las como pessoas.
no fundo — apesar do grupo culminar naquele momento no banheiro da shoshanna no penúltimo capitulo — o amor delas sempre foi verdadeiro, e isso é retratado de forma muito singela no final de “Beach House”, quando elas ignoram as coisas horríveis ditas antes e dançam a coreografia em silêncio, eu choro sempre. Eu amo minhas amigas.
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one man’s trash
(s2e5)

por favor não conta isso pra ninguém, mas eu quero ser feliz.
esse momento, e não o GIF icônico, que eu nem lembrava que vinha desse episódio, mas esse que é um dos grandes climaxes da série e não sai nunca da minha cabeça, foi o que motivou a minha escolha. é nos bottle episodes que a lena dunham brilha mais, tanto como escritora quanto como atriz, e nesse o charme dela fica tão evidente que chega a transbordar pela hannah. isso porque ela está inserida numa circunstância totalmente alheia à de sempre em que ela se vê compelida a recorrer aos seus piores instintos, onde tudo que todo mundo tem a oferecer um ao outro é o próprio “lixo”. em contraste com o estilo de vida boêmio hipster com o qual a hannah está acostumada, joshua vive num oásis suburbano em pleno brooklyn. enquanto hannah se apaixona por esse modelo de vida, pelas coisas e pela estabilidade como princípio, muito mais do que pelo joshua como pessoa (um homem mais velho, responsável e, em suma, normal), ele parece só aproveitar a companhia dela de forma relaxada e genuína e vê-la como uma mulher que, na verdade, ela ainda não é; assim que hannah se dá conta disso, ela recorre imediatamente à autossabotagem.
esse episódio diz coisas muito interessantes sobre conflito geracional, sobre o zeigeist da época, como boa parte da série, sobre identidade etc. mas outro dos episódios que mais me marcaram é o piloto, que de cara estabelece a hannah como uma artista, ou no mínimo como alguém de “temperamento artístico”, e pra mim esse episódio aqui é um retrato muito fiel da experiência de ser amado por alguém de “temperamento científico”, que é basicamente o oposto. claro que não faço juízo de valor de nenhum dos dois, o ponto é: eu quero sentir tudo e você quer sentir o mínimo possível. embora mútuos, são amores inconciliáveis, a começar mesmo por esse plural; não há unidade.
nós, crianças do século XXI, aprendemos rapidamente, muito graças a uma cultura geral de ironia, a ser como a raposa e desdenhar do que não podemos comprar. dessa forma, esse “lixo” do título começa o episódio sendo a vida perfeita e correta do joshua, inacessível a hannah e oposta à sua visão de mundo, passa a descrever a própria hannah quando se torna o “tesouro” do joshua, e termina sendo ela, ele e o destino final da experiência toda. ela acorda sozinha, usufrui das coisas como se fossem dela, mas se sente pequena numa casa tão grande. como se esperasse o pai voltar do trabalho. ser feliz é caro, é trabalhoso, é de uma simplicidade meio vulgar e, o pior de tudo, pouco literário.
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como se você soubesse que vai ter bolo depois.
o arco de amadurecimento da shoshanna é o meu favorito de se assistir. de todas ela é a única que não tem manual, enquanto as outras garotas estão vivendo seus problemas ordinários em nova york, – namorado que se masturba com fotos de ex, amigos que não permitem se desejar, um casamento falso e fadado ao fracasso – ela é a única que não se apega ao pertencimento no estado de ter outra pessoa, inclusive nesse mesmo episódio ela rejeita isso. o problema da shoshanna é muito maior do que crises em relacionamento, ela encontrou um lugar em que ela pertencia e teve que radicalmente se despedir dele.
dentro do mundinho das outras meninas existe uma posição confortável de estagnar, um conforto que é, na verdade, só medo. é divertido como a série te coloca em situações de criticar todos os personagens e ao mesmo tempo perceber que você tem um pedacinho do que te incomoda neles dentro de si mesmo.
eu estagnei durante anos como se aceitar minha condição fosse a única maneira possível de se viver. quando olhei pra dentro e tive coragem de querer mais, entendi que a prisão era minha. o tempo passa, reduzir nosso desejo até ele caber no que está disponível é se acorrentar com um cadeado de conformidade que no fim enferruja em remorsos.
pra mim o mais melancólico da cena final, em que a câmera fica com shoshanna na varanda do seu apartamento em tóquio, é ver cabelo dela descolorido inteiro, com apenas um vestígio apagado de rosa. mais um arco acabou. eu me sinto um pouco shoshanna.
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i love you baby
(s5e10)
✶ escolhido por julia l.

Serei Hannah para sempre. Não importa o que eu faça. Não importa se eu, sabe, iniciar uma nova crise nuclear com meus mísseis ou simplesmente relaxar e dar uma cesta de frutas para alguém. Só posso controlar o caos que crio ao meu redor.
Eu nunca consegui me relacionar com as meninas em girls. É engraçado porque contrariamente a Sex and the City – mesmo também sendo extremamente longe da minha realidade- nunca existiu situações em que conseguisse fazer uma associação à série de Lena Dunham. Não que isso seja necessário, só nunca aconteceu.
Foi na minha segunda vez que eu consegui, fatidicamente, entrar nesse universo. Especificamente na quinta temporada, episódio 7 e em diante. Hannah descobre o envolvimento de Jessa, sua suposta melhor amiga, e Adam, seu ex-namorado, da maneira mais sexy possível – para eles. Ambos trocando olhares em prédios distintos, fumando um cigarro e compartilhando aquele tesão de início de relação proibida.
Quando eu descobri que meu ex e minha melhor amiga estavam juntos, parecia que meu mundo tinha acabado, congelada no tempo e presa na realidade. Eu lembro vividamente do tremor no meu lábio superior quando pensava na ideia deles dois juntos. O jeito que ele tocava na minha perna, seria igual ao dela, no jeito que ela olhava pros homens quando sentia tesão com ele. Hannah falou quase que o mesmo: a mesma ideia, contextos diferentes.
Eu não fui escolhida por nenhum dos dois. Minha imagem e meu ser não eram dignos pra ser suficiente, nem como amiga, nem como romance, nem como nada. Não conseguia entender o que tinha acontecido e foi acompanhando o processo de luto de Hannah, que consegui enfrentar o meu.
Foi graças ao episódio “I love you baby” que eu percebi que, no fundo, não estava tão distante. Hannah entrega seu monólogo quase tentando ser engraçadinha demais — como quem quer se tornar relacionável para o público. E funcionou comigo. Me rendi como seu público. Me rendi para me perdoar, para, finalmente, sofrer. Por Ele e Ela.
Simples assim. Apesar da distância descomunal, apenas Julia e Hannah. Apenas Hannah — dizia ela, em toda sua perpetuidade. No fundo, eternamente, ela seria Hannah. E eu, apenas Julia. Somente Julia. Para sempre.
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poderíamos falar infinitamente sobre essa série. mas a gente também quer muito saber de vocês. qual o seu ep favorito da série? qual história ou momento mais te marcou? deixe um comentário aqui :*




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