PÁSCOA NO JAPÃO

PARTE I
PRIMAVERA AZUL

“We observed a mirage that bore us straight into the future.”
Takashi Murakami, Little Boy

LAYER 0

“Viagem da vida”. É como defino cada vez que anuncio a cada um que pode saber, há ao menos uns seis meses, que estarei no Japão em Março de 2026. Nunca fiz questão de esconder a obsessão, a pegada digital & física de weeaboo. Não preciso listar filmes e diretores e autores e artistas. Uns devo usar de títulos para seções quando transmutar a experiência em relato; noutros estarei pensando, mas só pensando, sem denunciar. Silvino está me perguntando se me tornarei finalmente o menino na minha foto do e-mail: face oculta como quase sempre, cabelo meio-longo preto, fones de ouvido, escutando Lily Chou-Chou na grama. Não sei.

Nas semanas antes da partida, tento atenuar a ansiedade sonhando. Quero tentar manifestar o que posso, até onde posso. Construir um moodboard mental. Penso sobre o conceito de ser estrangeiro, gaijin, em minhas representações favoritas. Coleto álbuns de imagens e sons: Rubius en Japón, “Discovery” do Daft Punk, remixes trance de Ayumi Hamasaki, Jet Set Radio, POiSON GiRL FRiEND, early Grimes, Arigato Grande, Music da Madonna, My Bloody Valentine, Oeil. Consciente de que nada nunca vai acabar sendo exatamente como imagino ou planejo. Por ora, espero.

Algo me puxa para vinte anos atrás, assistindo anime depois da natação no Bom Dia e Cia., quando tanto o Rio quanto Tóquio eram focos centrais da cultura pop. Snoop Dogg, Pharrell e os Black Eyed Peas aqui, Gwen Stefani e Missy Elliott e Sofia Coppola lá. Penso em Superflat, no Kanye de Graduation, em Velozes e Furiosos 3, em Kirsten Dunst de Hatsune Miku dublando “Turning Japanese” pelas ruas de Harajuku (que tive a satisfação de assistir no escuro do Tomie Ohtake, em 2019, durante a exposição de Takashi Murakami). Depois da década passada, dominada por SP e Coreia do Sul, sinto que estamos lentamente retornando. Paralelos fragmentados, o tal twenty-year cycle: cinema brasileiro em Retomada 2.0, Havaianas em Copenhaguen, Murakami de volta à Louis Vuitton. Em Janeiro de 2025, saí com um grupo de it boys nova-iorquinos visitando o Rio no Ano Novo que me informaram, como a vanguarda há de fazer, que todos nas “fashion cities” estavam querendo descer para cá. Dito e feito. O mundo inteiro esteve na cidade nesse último Carnaval.

Quando chega a Primavera, é temporada do Japão. A primeira-ministra vem falando de medidas para conter o aumento no turismo, especialmente em Kyoto. Mas já estou no táxi para o aeroporto.

BOARDING GATE

Galeão. Quando criança, this used to be my playground. Não mais. Espaço entre espaço. Big Science. Vigilância e carga. Ar que não move. Nomes falsos. Tudo é trâmite, antecipação de troca: de corpo, de mercadoria, de tempo. Nada nos estandes das lojas parece o produto real. Cada par de óculos escuros é um disfarce. Onde você está? 

Enxergo algo de belo no carpete bege do portão de embarque. Na sujeira dos espelhos que me transforma em sombra. Estou comendo. Dois homens brindam a algo com Stellas na mesa ao lado. Comprei chiclete. Tenho dois livros na mochila: “Ice” de Kavan e “Idoru” de Gibson. Não devo ler no primeiro voo, mas quem sabe? Doze horas até lá.

HARD FOCUS

Ano passado encontrei, na livraria do Estação Net Rio, uma edição especial esmurrada de uma revista de cinema francesa dedicada especialmente a um de meus filmes favoritos, Demonlover. Roteiro bilíngue completo, entrevistas, ensaios. Espécie de milagre. Alguns meses depois, em minha homenagem, meu amigo Gabriel programou o filme como uma das sessões de meia-noite do Net Botafogo. Pediu que eu discursasse antes do filme começar, mas bebi demais. 

Talvez devesse ter trazido comigo, mas sinto que foi decisão consciente deixar. Já vi tantas vezes; agora é hora de encarar. “Demonlover” trata de transporte e transmutação. Da Europa à Ásia, do físico ao digital, de sexo a violência, de corpo a carcaça. Guerra de informação envolvendo estúdios de hentai. Espionagem corporativa. Olhos mortos de Chloë Sevigny. Hélices no deserto. Snuff. Começa num avião. Sonolência azulada; seringa num copo d’água. Estou num avião agora, indo para Paris. Depois de Paris, Tóquio. O mesmo eixo do filme 

Brasil, França, Japão. Tríade do desejo.

Exploro o monitor da Air France. A curadoria de filmes é interessante; parceria com CANAL+. Tem Alpha da Ducorneau, La Boum (1980), vários filmes franceses recentes dos quais nunca ouvi falar. O que aconteceu com o cinema francês? A maioria desses lançamentos é comédia feel-good sobre grupos de amigos de férias na Itália ou batalhando câncer. Premiados recentes: Bugonia, One Battle After Another, Sentimental Value, O Agente Secreto, Die My Love, Duna, Wicked: For Good. Todos os Senhor dos Anéis e todos os Star Wars. Titanic. Durmo muito mal nesse voo; assisto muita coisa e não termino nada além de alguns episódios da primeira temporada de Simpsons (aquele em que Lisa, deprimida, aprende sobre os blues na ponte me deixa bem emocionado) e um filme francês chamado “Enzo” sobre um garoto burguês sem rumo que começa a trabalhar com construção e se apaixona por um pedreiro ucraniano. 

Navego pela seção de música; quero economizar a bateria do celular. A seleção de álbuns me diverte: All Eyez On Me, Currents, Man’s Best Friend, Back to Black, The Eminem Show, quase todos de Vanessa Paradis. Há coletâneas de music videos, cada um de uma década; ABBA e Bee Gees nos anos 70, Dr. Dre e Spice Girls nos 90. Playlists para cidades: Rio, Paris, Xangai, Los Angeles. Dois discos da Rihanna: Anti e Talk That Talk. Rihanna significa muito para mim, de um jeito quase análogo à Lana. Acho-as parecidas, até; assunto para outro ensaio. Anti é uma obra-prima. Decepção e violência e saudade. Escutarei em loop em cada voo dessa viagem. 

Perco meus óculos às duas da manhã; a caixa cai no escuro quando estou no banheiro, a aeromoça encontra, mas coloca na redinha do banco da frente. O mistério só é solucionado quando as luzes acendem ao fim da viagem; uma menina francesa sentada na fileira ao lado me vê no chão procurando e explica o que viu de madrugada. Consigo recuperar. Até lá fico ansioso por horas, com medo de ter perdido; quero poder enxergar o Japão.

SUR LE QUAI DU GARE/DANS UN DERNIER REGARD

Sete horas no Charles de Gaulle até o próximo voo. Não estou aqui. Comida verde qualquer coisa em café verde qualquer coisa. Hermès, Dior, Moncler, Longchamp, Gucci. Pacote de seis da La Durée. Entrevista da Deneuve na Cahiers. “A BELEZA E SEU PROBLEMA: Ela desliza, escapa, se esvai. O real é sólido; ela, não. Ela é a brecha pela qual a realidade material – dos homens, do dinheiro, dos casais e do amor, do cinema – estremece e duvida de si mesma. Deneuve não é espelho sociológico, mas um problema filosófico: o da beleza, esse grande silêncio que tentamos fazer falar.” Paul  Kircher na capa da Harper’s Bazaar Men. “I ❤ Paris”. Letra cursiva. Estandes de Playstation 5; meninos e joysticks. Tudo é branco, cinza, azul. Jogo um pouco. Divãs cinzentos de frente à janela; dá pra ver os aviões decolarem. Ao lado, uma estátua grande cinzenta de um gato dormindo sobre uma almofada. Eu, cinzento também; casaco com “CZECH” azul-escuro sob um grifo no peito. Ele tinha “grifo” no nome. Quando voltar pro Rio pergunto por que. Minha irmã me fotografa de costas. Sono profundo: eu e a estátua e vidraça opaca.

SUNTORY 

Treze horas de voo. Durmo melhor. Desperto. 

Elipses: constelações na água, rodas de mala sobre tapetes floridos, esteira, placas com desenhos de insetos e carne vermelha, filas, vento frio. Estamos no carro. Minha irmã no celular. Luz de teto neon cor-de-rosa. Um garoto com um casaco branco, pelo no capuz, saindo em patinete de um estacionamento. Duas garotas de conjuntinhos Chanel e cabelos ondulados pálidos. 7-11. Luzes vermelhas e azuis e amarelas. Vending machines. Chegamos ao hotel.

Uma hora depois, num restaurante por perto, estou fotografando com flash um prato de sushi. Todo mundo é a pessoa mais bem-vestida que já vi. Fumaça de cigarro. Foxy Brown tocando. Minha irmã se sente estranha, diferente. Diz que pareço com eles, tenho o mesmo estilo. Mas ainda não sinto. Pé no Rio.

De volta ao quarto, não consigo apagar. Dormi o dia inteiro. Ligo a TV; documentários de natureza, programas culinários, propagandas de anime, muitos infomerciais. Há pantufas embaladas na porta e um pijama com o nome do hotel dobrado na cama. Experimento, fotografo aberto no espelho, posto, então arquivo poucos minutos depois.

Sou sagitariano. Viajar é importante. O mundo é muito grande. Postei voando, então pausando antes de voar de novo e finalmente pousar. Agora tenho a sensação urgente de precisar parar. Viver primeiro. Esconder para que possa ver e ser o que ainda não sei. Deixei coisas malresolvidas em casa, outras simplesmente no ar. Não quero lembrar, nem que nada aconteça enquanto estou aqui. Ninguém vai estragar o Japão pra mim. Há dois anos atrás, chorei num avião. Nunca mais.

Brinco com o painel de controle em cima da cama; testo todas as estações de rádio, até chegar num botão escrito “BGM”. Música ambiente japonesa no meu quarto. Estou sonhando? 

Aumento o volume. Tomo um anti-histamínico qualquer que encontro na bolsa e voo, ou só pairo, por mais quatro horas.


A Parte I de Páscoa no Japão, por Pedro Minet, continua na próxima semana…

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