ter crescido no interior meio desconectada com o lugar que eu morava e com as experiências sociais ao meu redor (tanto de gênero quanto de sexualidade), inevitavelmente me tornou menino mogli de referências muito fora da minha realidade. tudo isso me fez criar uma conexão muito grande com o gênero do terror em geral, justamente pelo paralelo que existe entre a vivência lgbt e ser uma criatura monstruosa esquisitinha e nojenta pelos olhos dos outros. eu só fui entender muito mais tarde o quanto terror é um gênero queer nas entrelinhas e aí tudo fez sentido, principalmente meu sentimento de identificação com tudo isso na infância — mesmo quando eu mal entendia onde era meu espaço. e falar sobre o sentimento de ser a criança estranha e deslocada enquanto lgbt parece redundante, mas é impossível falar de dragula senão por esse caminho. 

quando a primeira temporada estreou, eu já era completamente imersa em rupaul’s drag race fazia algum tempo, mas um ano depois (e com orçamento menor que a primeira temporada do corrida das blogueiras) dragula trouxe um charme que, pra mim, na época já começava a faltar em drag race: o lado mais punk e subversivo da cena. acredito que todo mundo que acompanha o programa acaba percebendo como muitas vezes é necessário que as participantes se coloquem em caixinhas estéticas a fim de agradar tanto o público mainstream quanto os próprios jurados. em dragula eu nunca senti isso, pelo contrário, sempre senti como se o programa pegasse o que é descartado desse mundinho mainstream e usasse pra engrandecer um lado mais marginalizado da arte drag. 

as duas primeiras temporadas são basicamente o que aconteceria se o john waters produzisse um spin off de trailer park boys, tudo é muito cru porque ninguém tem muito filtro do que falar e as gravações são meio found footage, é simplesmente caótico e perfeito. todo esse nicho de filmes/séries/realitys que são feitos meio no improviso ou de um jeito que parece muito sincero e imprevisível sempre foi uma das minhas coisas favoritas: female trouble, tangerine, toda a filmografia do harmony korine, trailer park boys, nowhere do gregg araki e etc. uma vez no tumblr eu vi alguém descrevendo muitos desses filmes como “mostly dirty, hopeless, stupid, ugly cinema” e é uma descrição perfeita pra dragula também. 

com o passar dos anos tudo foi melhorando em produção, edição e visual. pra mim o marco zero disso foi a terceira temporada, o que veio antes dela foi tudo que eu falei no último parágrafo e o que veio depois já tinha um orçamento bem maior —  inclusive as próprias queens. não vou negar que uma grande parte de mim sente falta da essência do começo do programa e de como tudo era trashzão, mas sem dúvida a outra parte também fica extremamente feliz por ver que cada ano que passa as boulet conseguem mais público e mais reconhecimento. pra mim que sempre tive uma lowkey obsessão por maquiagem artística, diy, artesanato e todo esse mundinho de arts & crafts, a melhor parte do programa é ver o processo de criação dos looks. eu perco horas da minha vida assistindo vídeos de upcycling e moda e eu sinto que dragula é uma coisa muito crua nesse quesito por mostrar a construção das roupas e maquiagem por completo.

acredito também que o processo de transformação visceral que a gente vê em personagens do terror — vampiros, lobisomens, demônios — sempre foi uma interseção com a nossa comunidade, tanto pelo processo literal de se transformar em outra persona quanto pela experiência de auto descoberta. é muito comum que esses monstros sejam criaturas que não podemos colocar dentro de categorias que já existem e quase sempre sejam descritos como “coisas” ou “isso” (it), a ideia de você ser algo fora da norma e binariedade une muito o horror com a nossa vivência enquanto queer. justamente porque o elenco é composto por drags que tem referências muito mais nichadas —  terror, ficção científica, hqs, animes e todo esse lado da cultura pop que quase não é visto em drag race — e por optar por uma visão muito menos cisnormativa do que a gente vê em drag race (dragula foi a primeira competição de drag (em reality show) a ter um drag king e uma mulher cis no elenco, por exemplo), é muito mais fácil pra mim criar uma conexão com as participantes vendo que a maioria também compartilha desse nicho de interesses e foi a criança esquisitinha, seja pela aparência alternativa ou pelas experiências mesmo, acho que é um eterno sentimento de não se sentir sozinho que eu preciso de tempos em tempos reafirmar. 

o programa todo é feito em cima de três pilares estéticos:  filth, horror e glamour. geralmente os looks incorporam elementos super gráficos e explícitos usando body horror, fobias e qualquer coisa que possa causar desconforto visualmente desde blasfêmia à se sujar no próprio vômito. dentre os três,  glamour é o conceito menos usado nas runways – o que sinceramente eu até prefiro — já que é um tema já muito batido no mundo da moda como um todo. filth e horror seguem sendo os dois mais importantes (e foi difícil separar muitos desses looks que são uma junção de ambos) e o que vocês vão ver com mais frequência durante as temporadas.

então essa é minha lista com alguns dos melhores looks dentro dessas 3 categorias pra te convencer a assistir ou relembrar juntos nesse clima de halloweenzuxo e estreia de temporada nova!!!!

filth!!!!!!!!!!

é engraçado pensar que em 5 episódios do programa já tinha gente fazendo alusão sexual no palco usando um terço em todos os lugares do corpo que você possa imaginar (sério). sou um pouco suspeita pra falar de estética católica porque acho um conceito meio chique…  e o mais interessante nessa categoria em si são looks que fogem do que se espera de algo nojento normalmente, a melissa não usa a sujeira de maneira literal mas de um jeito “moralmente sujo” — inclusive acredito que pelas primeiras temporadas terem sido disponibilizadas direto na internet isso dava uma liberdade delas fazerem esses absurdos no palco. muitas vezes os looks de dragula te conquistam mais pela performance em si do que pela execução da roupa e tudo que a melissa fez nesse ball é barbarizante até hoje. amo mt!!!

a vander foi a primeira queen que fiquei obcecada na época que comecei assistir, fucei absolutamente tudo sobre ela na internet — acho que assisti todos os vídeos que encontrei dela performando por aí — muito porque eu conseguia ver referências que eu também tinha na pré-adolescência e, de novo, era um sentimento de “omg!! não é só eu que sou assim!!”. enfim, quando a primeira temporada saiu, o look de freira da melissa meio que ofuscou os outros pelo quão chocante foi, (e com razão) mas esse continua sendo o meu favorito da 1ª temporada. a vander não tinha mostrado muito do lado sujo e nojento dela tanto quanto outras queens na season pra chegar no último episódio e literalmente deitar e rolar no próprio vômito vestida de divine. e fazer isso no  primeiro reality show que você participa na sua vida = cuntiest.

provavelmente eu faria uma lista dessa usando só looks da segunda temporada só porque sou completamente biased. mas alguns são a representação perfeita do que essa season foi e esse da james é um deles, ela segue sendo uma das participantes mais versáteis que já passaram pelo programa. (off: muito ansiosa que ela vai voltar na temporada nova) hellraiser já é uma franquia conhecida por ser extremamente exagerada visualmente, então obrigou elas a serem mais exageradas ainda. sou obcecada em distorção corporal misturada com moda, a maquiagem dos olhos contrastando com o resto do look meio horror sex doll é tudo pra mim!!!

horror!!!!!!!!!!

minha opinião impopular é que a abhora é a queen mais apoteótica, linda, genial, fofa, querida que já passou por dragula. 💋 ela tem um dos estilos mais únicos de todo o programa e pra mim esse seria o look default dela se me pedissem pra escolher um. o tema era criar algo inspirado em fantasmas no velho oeste e eu amo como ao mesmo tempo parece uma linha tênue entre os desenhos antigos do mickey e um personagem do tim burton, quase todos os looks que eu trouxe aqui tem alguma coisa meio gore e esse é o exemplo perfeito de como fazer algo creepy sem sujar um botãozinho da camisa. enfim, passaria horas falando sobre ela mas infelizmente ninguém mais deve aguentar já que eu faço isso 24h por dia

decidir um look da hoso talvez foi uma das coisas mais difíceis de fazer nessa lista então decidi pegar o que eu acho mais diferente entre todos. se você der uma bizoiada nas montações antigas dela vai ver como parecia uma coisa meio aranha-inseto-planta-mutante, e quando ela fez essa releitura da sadako fugiu completamente disso. como uma criança que foi muito fascinada pelas várias adaptações e versões de ringu, acho que é meu look favorito dela. uma das únicas coisas que eu lembro de não ter curtido no filme original de 1998 era o visual muito clean da sadako o que me fez ficar ainda mais apaixonada pelo que a hoso fez. senti que ela me entendeu.

sempre tive uma preguiça absurda dos looks mirabolantes que a victoria fazia, — que eram impecáveis, mas pessoalmente prefiro minhas trashy princesses — depois de um tempo começou ficar meio sem graça ver ela fazendo maquiagens tão profissionais que nem me surpreendia. mas!!! hoje vou engolir meu #ranço pra elogiar ela! acho impossível terminar a categoria horror sem citar a victoria porque, de fato, ela se consagrou como uma das maiores maquiadoras do programa merecidamente. e esse é outro exemplo de look que não usa sangue ou gore necessariamente pra ser bizarro, os detalhes da maquiagem são tão perfeitos que mesmo nesses prints de 480p que fui obrigada a tirar dá pra perceber os gominhos da abóbora.

glamour!!!!!!!!!!

impossível abrir essa categoria sem ela ser a primeira!! apesar de ser muito querida, acho que a sigourney divide opiniões até hoje por ser uma das únicas queens do programa que vai mais pro lado glam.. e mesmo sendo a que eu menos gosto entre as três, se fosse pra escolher alguém que consegue executar bem o conceito seria ela. a maria antonieta com maquiagem do kiss que ela fez nesse episódio pra mim é um dos looks mais chiques. não discordo que a sigourney poderia ter feito coisas mais elaboradas durante a temporada, mas no que ela se propôs a fazer não tinha competição alguma e por esse look sozinho já serve de redenção #forfree

o dia que o landon entrou em dragula ele foi decidido a mudar completamente tudo que a gente já tinha visto até então. por ser o primeiro drag king a participar e por provavelmente ter a maior variedade de conceitos que qualquer participante já teve dentro do programa. é muito babado conseguir fugir do vampiro padrão hollywoodiano, europeu, todo de preto e branquelo que todo mundo cansou de ver no próprio dragula, inclusive sem ficar irreconhecível, mas acho que o grande charme aqui é que ser vampiro é um detalhe do look, quase um acessório com todo o resto, e no fim faz mais sentido ainda se você pensar que vampiros geralmente tinham essa pira com discrição e se esconder entre os humanos.

tudo que eu penso em escrever sobre a nio parece que não vai fazer jus ao talento dela, de verdade. ela é a única participante que eu acompanhava desde antes de dragula por coincidência de ter achado o instagram dela e mesmo que eu tenha papagaiado aqui e ali sobre minhas favoritas, acho que nenhuma delas chega perto do que a nio apresentou nessa última temporada. acho que não vi ninguém que ficou decepcionado com essa vitória porque foi impossível não torcer por ela desde o primeiro dia. especificamente esse consegue englobar as três categorias mesmo nem precisando, a moldura no pescoço é o maior tcham de todo o look e sem ela acho que não ia ter o mesmo impacto, meio que é tão auto explicativo todos os detalhes que até hoje fico babando na construção inteira que ela fez.  

muita coisa eu acabei nem entrando em detalhes já que o post era sobre as runways — as exterminations, os convidados etc — então o resto fica de surpresa pra todo mundo que for assistir! minha primeira lista tinha 18!!!! looks que eu e meu besty filtramos pra esses 9 (#bjo pra ele por ter me ajudado, te amo bb) porque sinceramente também não queria tirar a diversão da experiência que é ver alguns momentos pela primeira vez.

nunca vi muita coisa sobre dragula na internet desde 2016, principalmente conteúdo em português ou que não fosse longos artigos e entrevistas, tudo que eu tinha de base era posts do reddit ou opiniões do meu próprio grupo de amigos, e no fim acho que o programa meio que se divulgou no boca a boca mesmo, — até porque nenhum streaming colocou no catálogo e quem mantém a série viva aqui no brasil são basicamente os grupos de telegram que legendam os episódios — por isso espero que post possa despertar a curiosidade de quem ainda não conhece esse mundinho (ou cansou de passar raiva com drag race)

e a 6ª temporada estreia agora no início de outubro então fica de recomendação pra todo mundo meio gay son, horror daughter ou fashion cousin que quer alguma coisa nova pra assistir nesse mês! ♥♥♥

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