PÁSCOA NO JAPÃO

PARTE I
PRIMAVERA AZUL
CAPÍTULO II


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CHERRY BLOSSOM BOY

Às cinco já estou acordado, mas não quero que ninguém saiba. Tomo banho quente, desço. Rodo pela quadra. Às sete, dou sinal. Minha irmã também dormiu pouco, responde imediatamente: “O que está pensando?” Concordamos.

Comemos panquecas macias com creme e mel num café por perto, então andamos até o Yoyogi Park para ver as cerejeiras. Elas vêm florescendo nas últimas semanas; agora estão 100%. 

É domingo. Lotado. Famílias, grupos grandes de amigos, casais. O parque fornece lonas azuis grátis; céu na terra. Todos deixam os sapatos perfeitamente posicionados, em diagonal, entre o plástico e as frestas de grama. Um trio de executivos dorme. Turistas se esquivam por bolsas para fotografar as flores. 

O parque é enorme, com um cerco para cachorros e uma série de pequenos bosques entre os campos principais. Estou alternando entre o celular e uma Cybershot com foco quebrado que minha mãe comprou em 2007 e encontrei na gaveta do quarto semana passada. Parte de mim não quer realmente fotografar nada. Sei que a beleza do que vejo é incomunicável. A câmera não pega a cor exata, o rosa pálido ficando branco. O branco corado. A multidão. Uma cidade inteira, parece, fazendo piquenique em tributo às flores. 

Uso óculos escuros; descubro depois que aqui associam com Yakuza e gente de intenção dúbia. Por ora, não me importo de destoar. Começo a entender coisas. Observar. Um homem de moicano e jaqueta Westwood. Dois amigos, um loiro e um moreno, combinando. Meninas de laço. Garotos brincando com raquetes. O sapato de couro esfola meu pé; vai doer a viagem toda. Cobrirei com band-aids de Pikachu e Miffy.

Estamos em Harajuku, mas ainda não em Harajuku. Até chegar lá, passamos pelo portão de um templo. Santuário Meiji. É famoso, estava nos planos, mas não me toquei que era tão perto. Entramos. Caminho longo de bambus. Um paredão alto de barris de saquê; oferenda aos imperadores. Uma fonte, um pátio. Um casamento em curso: a noiva de wataboshi branco, o clérigo brandindo uma sombra vermelha. Comitiva breve, carregando presentes. Todos param para assistir e filmar.

Há um mural com pequenas placas, onde se penduram desejos em troca de moedas. Gentileza gera gentileza. Leio alguns, outros não consigo. Notas boas em provas, saúde para a família, casamentos com bilionários, presentes de aniversário. Penso em escrever algo, mas não escrevo.

HYSTERIC GLAMOUR

A rua principal de Harajuku se chama Takeshita. Faz muito sol. Multidão. Só se anda em fila. Minha irmã se refugia entre a Uniqlo e a Cosme num shopping próximo. Escapo para ruas escondidas. Exploro. Tenho uma espécie de cataclismo com tudo que vejo. É meu primeiro dia e estou no epicentro de tudo que já se veio e ainda virá a conhecer por “estilo alternativo” mundo afora. Muito chocante. Não sei se é porque é domingo, dia de vadiar e impressionar, mas a moda dos passantes é realmente algo de outro universo. Sinto algo análogo a uma Síndrome de Stendhal. Começo a entender o que Gwen Stefani quis tentar dizer. Chega a ser um pouco humilhante. Tudo perfeito: a estrutura de cada par de calças, meias, sapatos, cada camada, chapéu, jaqueta. Cada mísero acessório, e são tantos. Vejo Lolitas, ouji, rockabilly, morute, visual kei, gyaru. Lojas de blazers steampunk, de uniformes escolares, do que parece o guarda-roupa completo de um elenco de Ai Yazawa. Brechós repletos de Southpole, Etnies, Dickie’s. Lojas da Sanrio, Converse, Brandy Melville. Quero registrar tudo e todos que vejo, mas é impossível. Muitas das lojas explicitamente proíbem câmeras, mas não falo disso. É como as cerejeiras mais cedo: só eu sei o que vi.

A alguns metros da Takeshita, há um shopping chamado Laforet. Fácil encontrar; há uma loja enorme da Vivienne Westwood bem na entrada, junto a um outdoor da Acne Studios que hoje tem Robyn (“Seexistential” foi lançado há poucos dias) estampada. Lá dentro, seis andares de estéticas variadas, desde o icônico kawaii da Liz Lisa ao punk. Toco alguns Demeulemeesters e Yamamotos expostos no primeiro andar. No terceiro, encontro uma X-Girl, a marca de Kim Gordon, e entre o terceiro e o quarto, a Milkfed de Sofia Coppola. Ambas fundadas, uma atrás da outra, em meados dos anos 90. A Milkfed, especificamente, sempre foi exclusiva ao Japão. Verdadeira relíquia. Entro um pouco em parafuso. Sei que ela não é mais a diretora criativa, mas a loja ainda tem seu bom gosto. A logo mítica. Há uma foto de Sofia no provador. Preciso comprar. Compro.

Penso que nada mais vai me impressionar em festa ou feed paulista algum depois de hoje. Depois de presenciar o blueprint, tudo parece AliExpress.

TOPAZ

Jantar em Shibuya. Omakase: não há menu, o chef decide a refeição. Temos reservas e um endereço incerto. É difícil achar; no caminho damos voltas por galerias desertas e passagens subterrâneas. Uma moça de minissaia, botas altas e uma Hello Kitty balançando da bolsa Prada desfila contra uma parede espelhada, então dá meia-volta. Tudo parece secreto e perverso. Quando finalmente encontramos o restaurante, no sexto andar de um edifício estreito, o ambiente é tão lânguido quanto o percurso. Cabines privadas, como numa casa de chá. Lembro de “Noite Vazia”, de Khouri. Mas não é São Paulo.

Quando acaba, saímos em direção à Shibuya Crossing. A faixa é bem menor ao vivo. Carros dividem asfalto com corridas de kart. Minha irmã está cansada, quer passar na 7-11 e dormir. Despede-se. Fico sozinho, andando. Entro no prédio da Taito, para ver os arcades. Dois garotos mascarados, carregando instrumentos musicais em malas, descem as escadas comigo. Piso xadrez vermelho-e-branco. Muitos jogos, poucos que reconheço além de Mario Kart. Nos fundos, aposta virtual de corrida de cavalos em meio a pinball e Dance Dance Revolution. Um menino dança saltando, freneticamente. Há tanto jovens quanto senhores de idade, com seriedade de pôquer. Penso em abrir uma live no Close Friends, mas ninguém deve estar acordado. Envio algumas imagens mais tarde ao meu primo David; ele define como um “cassino do bem”.

Esperando o sinal na calçada em frente, entro em transe acompanhando os trens na distância. Ando até a MEGA Don Quijote. Oito andares, aberta 24h. Absolutamente tudo imaginável à venda, descontado, desde papel higiênico a chaveiros de Monchichi a bolsas da Burberry. Pinguins no elevador exclamam “Let’s Go Shopping!”. A escada rolante tem um corrimão de arco-íris. É tudo um pouco demais. Fico tonto. Não compro nada.

Até o fim da viagem, minha irmã virá aqui varias vezes. Desenvolverá uma intimidade terna com o caos. Donqui, Uniqlo e 7-11 formarão uma Santíssima Trindade de conforto e base. Das três, acho que a Uniqlo é a que mais que me toca; bons básicos. Mas no último dia, antes do voo, quando estou gastando minhas moedas restantes na 7-11 do quarteirão do hotel, sinto uma espécie de nostalgia antecipada. Me arrependo, assim que decolo, de não ter apanhado uma das camisetas com o logo da loja no caixa.

GRAN PULSE

Tudo no Japão parece estar ainda um pouco preso nos anos 90 e, ao mesmo tempo, num futuro distante inalcançável. Como se o mundo aqui existisse num espaço – para não dizer limbo – inefável entre o hiperdigital e o analógico. Muitos estabelecimentos, e até a máquina de recarga do cartão do trem, só aceitam dinheiro físico. Prédios da “Book-Off” (grande rede de lojas de produtos usados, com várias franquias pelo país) repletos da cabeça aos pés de hardware e maquinaria antiga, instrumentos musicais, cartuchos de NES, fitas de VHS, pelúcias conservadas. Há um apego ao Objeto, aos produtos e seus processos, que é simultaneamente hipercapitalista, apocalíptico em sua intensidade, e ao mesmo tempo quase subversivo no afeto. O objeto como ente, como parte do corpo. Nunca descartável. É a nação do Tamagotchi e Pokémon, afinal. Tento comprar um boneco-chaveiro Dimoo especifico na PopMart que vejo na bolsa de um senhor de uns 50 anos no metrô, mas eles esgotam de um dia para outro nas lojas físicas, como barras de chocolate Wonka. As pessoas saem de casa. Todos os lugares estão sempre cheios. Todas as lojas são megastores, com andares e andares de prateleiras e prateleiras. Logomania impera; em Shibuya todos são outdoors ambulantes, dos fashionistas de Number (N)ine aos hypebeasts de Stüssy aos executivos com suas Bottegas. A auto-objetificação – como sempre, desde sempre, em qualquer lugar – é resistência de guerra, e aqui ela acelera ciclo por ciclo do Inferno até se redimir, como Dante, num Paraíso de símbolos. A canção de Jessie em Toy Story 2 como hino nacional. Aliás, amam a Disney. Há uma loja enorme em Harajuku. Especificamente a iconografia clássica; quase todas as gyaru indo para a escola, em seus cardigãs, minissaias xadrez, meias grossas e mocassins, têm Minnies penduradas na bolsa ou celular.

Na Tower Records, ainda há fones para escutar música enquanto se escolhe o que quer comprar. Um senhor dança e cantarola, extasiado, escutando o novo disco do Morrissey. Acompanho os pôsteres de lançamentos internacionais para entender quem atualmente é “Big in Japan”: Robyn, Sabrina Carpenter, Geese. Entre os locais, há muito destaque para Lamp e Ichiko Aoba, e um estande repleto de cópias da trilha sonora de Silent Hill 2, com adesivos na capa escrito “BEST-SELLER”. 

Há um andar só para vinis, outro para trilhas de jogo e anime, outro para CDs internacionais. Uma ala de VTubers, uma de Japanese Ambient, uma enorme para o “Brazil”. Caetano, Gal, Milton, muita bossa nova. Amam-nos de verdade. Uso minhas últimas horas em Tóquio para fazer uma limpa na loja. Encontro coisas inacreditáveis; Live Through This e Pretty on the Inside, ambos por 60 reais apenas, Harold Budd, Tommy february6, Elliott Smith, Brian Eno. 

KOENJI

Pego a ferrovia, JR Line, até um bairro um pouco distante do centro, conhecido por seus brechós. Não é Shimokitazawa; ouvi que lá tudo ficou overpriced depois de viralizar entre os turistas. Esse se chama Koenji. 

Todo mundo fala sobre o Japão ser o paraíso dos brechós, e não é mentira, mas é preciso esclarecer algumas coisas. A grande maioria das lojas de secondhand aqui não são brechós, exatamente, mas franquias de redes nacionais de comércio de moda vintage. O “brechó”, no Japão, é uma indústria. Algumas você encontra por todo lado nos grandes centros: Ragtag, Chicago, Anchor, Kindal, 2nd Street. Umas especializadas em marcas de luxo – Yamamoto, Comme des Garçons, Miu Miu, Louis Vuitton -, outras em vintage americana, outras em streetwear. Koenji parece mais local, pessoalizado, e em conta. Realmente, andando por lá, a única “rede” que encontro é a TreFac Style (bem menor e menos gourmet do que as outras mencionadas). Tem também uma Little Trip to Heaven, que depois vejo de novo em Kyoto. Mas, que eu me lembre, só.

É meu bairro favorito da viagem inteira, não só pelos brechós. A atmosfera é idílica. Há movimento, mas também silêncio. O sol bate suave. Tudo é familiar e reconfortante. Entro numa rua residencial para alcançar uma avenida e o vento faz com que uma cerejeira enorme no quintal de uma casa solte pétalas na calçada. Sou o único passando. Cena de anime slice-of-life. Se morasse em Tóquio, gostaria de morar aqui.

Quando chego à área comercial, não me decepciono. A frequência é quase toda de locais, e os achados são inacreditáveis. Carhartt e Ralph Lauren a preço de banana. Araras e araras de jaquetas e calças de raw denim, todas por 1500 yen (40 e poucos reais). Tênis, mocassins, coturnos. Muito couro. Uma das lojas em que compro não tem funcionários, só câmeras por toda parte para envergonhar shoplifters. Eu mesmo faço o checkout. 

Já tinha ouvido falar de Japanese Americana (também conhecida como Ametora, Amekaji ou Ame-Tra), uma escola de estilo obcecada com o workwear e prep dos Estados Unidos de outrora, e aqui tenho o primeiro contato da viagem com sua imensidão. Há lojas inteiras dedicadas a estilo western, coleções de botas de caubói, jaquetas de futebol americano, vintage Levi’s, botas de greaser. É uma fantasia mista entre os anos 50 de James Dean e Paul Newman e os 80 de Emilio Estevez e Matt Dillon. Picos de representação do Império. Algo de John Waters, de como ele digere e vomita a nostalgia pelos Anos Dourados americanos em seus CryBaby, Hairspray, Female Trouble e Polyester. Pesquisei extensamente antes de vir; já sei algumas lojas que preciso ir de antemão, para então poder vagar livremente. A primeira se chama SUPER OLD. Minha missão é conseguir, especificamente, uma jaqueta varsity. A jaqueta varsity perfeita. Encontro muitas, de cores variadas. Sonhei com uma vermelha-vinho, mas não sei. Tem uma verde que veste melhor. Fico na dúvida. Considero o acervo de calças e jaquetas de couro, mas é tudo muito pesado para o Brasil. Nunca fui tanto de couro, sendo sincero; gosto dos homens que usam, do meu rosto nas suas luvas e o cheiro das botas. Mas, para mim, sempre preferi pelo.

Há outro estrangeiro experimentando roupas lá; sorri para mim do provador quando me vê pelas araras. Ele tem um pornstache dos anos 70; está provando calças altas e camisas pólo que o deixam parecendo ainda mais um tarado. Indo jogar boliche. Digo isso para ele; ri e concorda. É o que parece querer parecer. Sleazy. Jovem e loiro. Diz que é de Delaware. Digo que sou do Rio. Falamos do clima. Ele reclama que a maioria das Levi’s são justas. Prefere a varsity verde em mim. Brinco sobre desejar uma jaqueta assim porque não pude viver a fantasia adolescente de quarterback sendo brasileiro. Como os japoneses; tudo fantasia. Ele conta que jogava quando estava no Ensino Médio, mas se machucou. Agora estuda Programação. Trocamos Instagram e nos separamos; ele manda mensagem pouco depois, perguntando onde estou, e se encontrei outros brechós legais. Mas não respondo, por alguma razão.

No dia seguinte, quando visto a jaqueta, percebo que ela não é de time. “Rated X” escrito enorme nas costas. #minetcore, I guess. Descubro que é da Devilock, lendária marca da cena alternativa de streetwear de Harajuku (Urahara) dos anos 90. Venci.

Retorno a Koenji uma última vez antes de viajar para Kyoto, como para ter certeza de que não me esqueci de nada. Depois do fim de semana em Kyoto, só terei mais um dia em Tóquio, e ainda tem coisa ou outra que não terei visto; preciso zerar esse nível. Acabo não comprando mais nada, mas fico um tempo acariciando a malha de todo suéter pastel da Brooks Brothers que encontro, e faço amizade com um vendedor. Quero que tenha Quiksilver na loja em que ele trabalha; não tem. Mas a conversa engata. Ele tem cabelo do mesmo tamanho que o meu, é alto e desengonçado. As próprias feições têm algo de desengonçado. Fenótipo slacker, Salsicha de Scooby-Doo. Poderia ser meu primo; queria que fosse. Diz que ama o Brasil; ia em 2020 ao Rio para jogar futebol, mas aconteceu o Covid. Espero revê-lo, em Koenji, um dia. 

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Amigos e reply guys sempre dizem que sou “fake wasian”, tal qual Gordon-Levitt e Ezra Miller. João brinca que estou retornando à motherland. Paulo me chama de Shosh. Lembro de Lena Dunham explicando que Jenni Konner teve a ideia para aquele episódio de Girls depois de visitar o Japão e concluir que “Todo mundo no Japão é uma Shoshanna”.

“Todo mundo no Japão é um Minet”.


Parte I de Páscoa no Japão, por Pedro Minet, continua na próxima semana…

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