PÁSCOA NO JAPÃO

PARTE II
BELEZA & TRISTEZA
CAPÍTULO II


Clique aqui para ler o Capítulo I


A GENTLE BREEZE IN THE VILLAGE

Day off in Kyoto. Domingo de Páscoa. Renascimento?

Decidir o que fazer. Falta o Pavilhão Dourado; fãs de Mishima curtirão o story. Mas dizem que é cheio, muito cheio, e um pouco longe. Cansado de gente. Prefiro Kawabata, secretamente. Quero fazer o que quero fazer. Um amigo me recomendou o Heian Jingu; disse que o jardim é lindo e plácido. Se quiser se sentir como Scarlett Johansson em “Lost in Translation”…

Ou algo. 

(Descubro, mais tarde, que é justamente o templo que ela visita no filme)

Pego o metrô. Grupos grandes de adolescentes de maquiagem pesada e fantasias no mesmo vagão, depois traçando o mesmo caminho pelas ruas do bairro. O que pode estar acontecendo? Para onde estamos indo mesmo?

Quando chegamos ao santuário, o parque em frente tem tapetes cor-de-rosa estendidos por todo o lado, cercados por fotógrafos e o que parecem jurados. Os jovens maquiados fantasiados se reúnem e motivam como times pelos cantos. Algo num cartaz sobre dança e cerejeiras e a aparição especial da atual Miss Kyoto. Não entendo, nem tento; sigo. 

A poucos metros do portão principal do templo, viro uma esquina para comprar água na maquininha. Avisto um campo, e alguns meninos jogando algo. Futebol? Lembro de casa, da Lagoa. Chego mais perto. É beisebol. Quero ver mais. Encontro a entrada para a arquibancada. Torço, quieto, com os outros. Alguns meninos, saídos de outro jogo ou prontos para o próximo, se alongam ao meu lado. Não fico até o final.

Os jardins do Heian Jingu são realmente estonteantes; meu santuário favorito, o mais belo e tranquilo, até agora. Quando saio, de volta ao parque, o evento começou: festival de yosakoi. Consigo um lugar privilegiado para assistir. Acompanho três ou quatro times. Batemos palmas. Fico emocionado. Mas então com muito calor, e a sensação de que já preciso estar em outro lugar, vendo mais alguma outra coisa que nunca vi. 

Cruzo a ponte. Sento num banco perto do canal. Um barco passa; os tripulantes acenam para mim e um velhinho em pé por perto. Pétalas de cerejeira no vento.

LOVE – ZERO = INFINITY

Estou esquecendo do Pedro Minet.

Espero que você esteja bem por aí

é o que sempre dissemos.

Que horas são no Brasil?

A SCENE AT THE SEA

Na volta para Tóquio, durmo de novo, mas minha irmã vê o Fuji. Frações, na verdade; diz que estava nublado. Ao invés de seguir para Shibuya, pegamos um trem na estação central para Kamakura, uma cidade costeira a 40min de trem. Lojinhas e cafés com nomes franceses me lembram de Búzios. Minha irmã fica emocionada com a praia. Eu também; penso no Rio. Ela quer tocar a água. “Quente”. Tenho medo de manchar demais os Court Graffiks quando desço para a areia, mas é pedra e não suja. Continuam branquinhos.

Nesta cidade os rapazes deixam a barbicha crescer e não penteiam os cabelos. Um restaurante “californiano” em frente à praia tem um boneco Woody e um Charlie Brown na vitrine, ao lado de uma loja de surfe repleta de revistas Thrasher e Surfer e camisetas vintage da Roxy e Billabong. O compromisso dos japoneses com estética não para de me encantar; realmente encarnam. É como um mapa de videogame: cada microrregião com um código hipercoerente, hiperreferencial, inflexível, de estilo e gramática visual. Compro um boné. Avisto um grupo de garotos jogando futebol num campo ao lado, então sou surpreendido por um homem, sorrindo de orelha a orelha, que me aborda perto do caixa. Está animado com as ondas; me pergunta se vou surfar mais tarde. Acho que me encaixo.

DREAM DROP DISTANCE

Últimas horas em Tóquio. Algumas pendências: não fui a Jimbocho, o bairro dos sebos. Não fui ao Cemitério Tama. Não fui a Ueno. 

Minha irmã quer Onitsuka Tigers. Vou junto. Caos total; fugimos para o segundo piso. Tenho de escolher rápido meu favorito entre dois que restam no meu tamanho. Uma das vendedoras entra em colapso, atira uma caixa no pé de uma família italiana. Uma mulher americana no balcão quer customizar o par com suas iniciais; a funcionária explica que só fazem na loja de Ginza. Ela terá de reservar um horário. 

Acho que não falei de Ginza; é a Quinta Avenida de Tóquio. O prédio da Tiffany’s brilha como um diamante turquesa. Manequins da Dior posam com as mãos na vitrine, como se quisessem escapar, enquanto os da flagship da Uniqlo giram em uníssono. Passo por lá quando vou à Converse Tokyo experimentar One Stars. 

Vamos também à Brandy de Harajuku, tentar ver se conseguimos as camisetas e hoodies “TOKYO” que só vendem aqui. Fila que cruza o quarteirão. Não quero nunca partir, mas admito que estou exausto da quantidade de gente em todo lugar. Sinto falta de calçadas em que não é preciso o tempo inteiro se preocupar em desviar. De não ver nada por um momento. De espaço.

Retorno a Akihabara para olhar pawn shops e mais lojas de mangá e DVDs antigos. O algoritmo me revela que, dois dias antes de chegar à cidade, uma funcionária da loja da Pokémon foi esfaqueada por seu stalker. Em 2008, um massacre histórico no bairro matou sete e feriu onze. Quero comprar cartas para David; quando fomos ao C6 juntos ano passado ele me presenteou com algumas. Não sei bem o que escolheria. Não fui criança Pokémon; sempre preferi Yu-Gi-Oh e Digimon. Faria um esforço por ele. Mas preciso ir a Shinjuku – especificamente Kabukicho – antes que escureça demais. Voltaremos juntos, primo. Prometo.

A estação de Shinjuku é um labirinto, e a mais cheia de Tóquio. Ela sintetiza muito do que é especial e insuportável em andar pela cidade. Estou observando e pensando de novo em algo que já escrevi neste diário: aqui as pessoas saem de casa. Vivem as ruas. Por esta estação, há milhões de microcontos passando rápido pelo olhar; é preciso estar atento. Em meio aos executivos e os estudantes e as jirais e os gyaruos, algo me chama atenção especial, por um instante, num grupo de garotos com tacos de golfe e mochilas se despedindo de um dos membros do time. 

Outra coisa: a prevalência de anime. Uma vez lera que, no país, era uma espécie de subcultura. “Otakus” como manchildren, párias. Mas não me parece verdade, ao menos não mais. Olhos de meninas e meninos 2D vigiando a cidade como gárgulas. Estão por toda parte. Além deles, os idols. A cultura é muito forte aqui, ainda. Murais divulgam programas de talento em fachadas, rostos enfileirados como em fotos de anuário estampam ônibus, placas nas estações alugadas por fã-clubes parabenizam aniversariantes da semana.

Depois de Kabukicho, última ronda por Shibuya, e então hotel. Preciso que tudo caiba nas malas. O carro para o aeroporto chega às cinco da manhã. Andando da Tower Records até lá, as ruas do bairro estão vazias pela primeira vez desde que cheguei. Parece um milagre. Só eu e um Pikachu, andando de skate no alto de um prédio. Um carro passa; não tenho medo. Piscar de luzes contra os joelhos. Estamos nos despedindo.

SAILOR SUIT & MACHINE GUN (CENSO FINAL)

Garotos japoneses andam em bando, garotas japonesas andam em dupla. Combinando nos míseros detalhes, de um jeito gêmeo. Como em 3 Women, de Altman.

Garotas: Minissaias, renda, botas de plataforma, tênis chunky, meias 3/4 e 7/8, blush cor-de-rosa no nariz, vestidos com calça jeans, laços, maria-chiquinhas. Pernas descobertas, ombros cobertos.

Garotos: cintos finos, calças largas, gorros, boinas, bonés, cardigãs, puffers, track jackets. Nenhum usa bermuda. Os cabelos brilham de gel.

Ambos os gêneros igualmente vaidosos. 

Todos os boatos cronicamente online sobre calças baggy estarem saindo de moda para serem substituídos por bootcut e skinnies ficam de lado. O que é indie sleaze? Os garotos de Tóquio em Abril de 2026 só usam oversized: baggy, barrell, relaxed. Na verdade, há dois tipos de garotos em Tóquio. Os que usam roupas largas são a maioria esmagadora; o garoto médio se veste como um personagem de Kids ou um rapper americano dos anos 90. Claro, com adaptações. Muito Salomon, Supreme, North Face, Kapital. Outro tipo, mais expressivo nos distritos da moda – Shibuya, Harajuku, Shinjuku – usa flares e bootcuts e roupas desconstruídas escuras, à la vkei, Slimane e os gyaruos do início do milênio. Final Fantasy: Advent Children-core, com uma androginia distinta. Há um terceiro, também, geralmente enfurnado em arcades e cantos de metrô, com óculos e cabelo curto sem produto e tênis surrados sob calças slim, que só não parece se importar muito com o que está vestindo. 

Todos os boatos cronicamente online sobre calças baggy estarem saindo de moda para serem substituídos por bootcut e skinnies ficam de lado. O que é indie sleaze? Os garotos de Tóquio em Abril de 2026 só usam oversized: baggy, barrell, relaxed. Na verdade, há dois tipos de garotos em Tóquio. Os que usam roupas largas são a maioria esmagadora; o garoto médio se veste como um personagem de Kids ou um rapper americano dos anos 90. Claro, com adaptações. Muito Salomon, Supreme, North Face, Kapital. Outro tipo, mais expressivo nos distritos da moda – Shibuya, Harajuku, Shinjuku – usa flares e bootcuts e roupas desconstruídas escuras, à la vkei, Slimane e os gyaruos do início do milênio. Final Fantasy: Advent Children-core, com uma androginia distinta. Há um terceiro, também, geralmente enfurnado em arcades e cantos de metrô, com óculos e cabelo curto sem produto e tênis surrados sob calças slim, que só não parece se importar muito com o que está vestindo.

Percebo um revival dos anos 90 e início dos 2000 num geral na moda de rua, o que me faz sentir ainda mais sortudo por estar aqui agora. Vejo muitas gyaru vestidas exatamente como as garotas de Love & Pop, Bounce Ko Gals, Lily Chou-Chou, Gogo Yubari, além de divas do j-pop y2k como Namie Amuro e Ayumi Hamasaki. Ao mesmo tempo, subculturas novas como o jirai kei servem como um equivalente, ou espelho, atual. Vejo muitas meninas jirai, especialmente por Harajuku, Shibuya e Shinjuku, e frequentando cabines de fotos Purikura em arcades e lojas de departamento. 

No Purikura em que vou com minha irmã em Akihabara, há uma área de penteadeiras com espelhos e pranchas de cabelos para que as meninas se aprontem. Duas garotas jirai fazem baby liss e gravam TikToks; outras por perto retocam maquiagem. A cabine de fotos como ensaio editorial, um verdadeiro ritual. Antes de entrar nos Purikuras, você seleciona um “tema” e lá dentro tem de reproduzir uma série de poses. Depois segue para outra cabine, onde tem alguns minutos para editar suas fotos com stickers, desenhos, filtros. Então, numa cabine final, imprime suas fotos e recebe um QR Code para tê-las no celular. Não conseguimos acessar o site; minha irmã pede ajuda a algumas meninas, e elas se oferecem para passar por AirDrop.

Garotas jirai devem ser o mais próximo de um equivalente dos anos 2020 para o gyaru da virada do milênio, especialmente pelas associações com transgressão e comportamento “antissocial” juvenil. Enquanto as garotas gyaru, nos tempos áureos do Harajuku e do kawaii, tinham uma estética hipersaturada, tropical, party girl, influenciada pelo McBling americano, as jirai são marcadamente mais “sombrias”. A paleta geralmente fica em combinações entre o preto, rosa chá, branco, lilás, e cinza. Há algo das Gothic Lolitas nos vestidos gingham com laços, Mary Janes, mas também das gyaru na obsessão com acessórios fofos, maquiagem pesada, Sanrio, e rebeldia. “Jirai kei” significa “mina terrestre”. Meninas-mina, que a qualquer momento podem “explodir”. Como as infames e-girls “borderlindas” da nossa finada cultura pandêmica de Praça da Liberdade e Discord. As jirai parecem assumir e ressignificar essa “histeria” como identidade subversiva, com a típica disciplina estética da nação. Me lembram um pouco o “kinderwhore” de Courtney Love. Pode-se chamar de punk. Ainda assim, a questão de sempre: até onde resistir pela estética, pela “ressignificação” pode realisticamente levar? O grande olho de Sauron não acaba reabsorvendo e mercantilizando tudo vez após vez? Como escapar? Até onde se tornar imagem salva? 

No fim do século XX, as gyaru se tornaram ícones de uma certa narrativa nacional de decadência da juventude e da estrutura familiar japonesa. A mídia criou um espetáculo acerca do fenômeno do “enjo kosai” – uma prática de exploração sexual de menores em que meninas colegiais eram pagas para “fazer companhia” a homens mais velhos depois da aula – e as gyaru eram comumente retratadas e julgadas como a “face” da problemática. Inúmeros filmes da época como os já mencionados “Love & Pop”, “Bounce Ko Gals”, e “Lily Chou-Chou” representam isso, sempre com as meninas vestidas com as polainas, mocassins, minissaias e acessórios fofos nas bolsas e celulares típicos da subcultura. O mesmo acontece com as jirai, hoje em dia. Entre as “Toyoko Kids” – comunidade de adolescentes sem-teto que vive em Kabukicho sob a cabeça do Godzilla do Cinema Toho, muitos dos quais acabam sendo absorvidos pela indústria de vida noturna e sexo da região – quase todas as garotas adotam o estilo. Muitos dos bares de hostesses sendo divulgados em outdoors pelas ruas de Tóquio e Osaka têm as meninas vestidas em roupas jirai, transformando a rebelião em fantasia suave, facilmente consumível pelos mesmos homens de gerações mais velhas que as abnegam. Dicotomia clássica do recalque: julgamento e fetiche.

Sobre os bares de hosts e hostesses: não esperava que fossem tantos. As ruas ao redor do canal do Gigo em Osaka são repletas de anúncios tanto de moças quanto rapazes. Os garotos geralmente têm aspecto de idol; blazers de príncipe, franjas lambidas. Não vejo nenhum anunciando na rua até que passo por Kabukicho na minha última noite em Tóquio e presencio as Toyoko Kids em carne e osso. Fazem duas fileiras, paralelas, de forma que você passa por entre um grupo enorme de garotos e garotas, todos fantasiados, segurando placas e te chamando. Meninas de vestido, meninos de terninhos. Rapazes mal-encarados parados a cada poste, como se esperando alguém, ou fazendo rondas. Alguns homens bêbados caídos por esquinas. A insegurança aqui não é como nos centros do Rio ou São Paulo; ninguém vai te assaltar nem furtar. Mas se seguir algum dos jovens sorridentes até um bar, é bem provável que acorde no dia seguinte com o cartão clonado. Em frente ao cinema, os primeiros guardas municipais que vejo desde que cheguei ao Japão fazem uma espécie de perímetro. Impedem que um menino muito jovem de cabelo platinado e cardigã, trazendo uma mala grande, entre na praça. Ele protesta. Tem um evento acontecendo: homens engravatados estão pagando e fazendo fila para tirar fotos com garotas da área. Sei que há grupos underground de idols em Tóquio, e parece um meet-and-greet. Lembro das bailarinas marginais de Degas e seus benfeitores, da Montmartre dos retratos de Lautrec. Quando passo, um dos homens está se aproximando de sua favorita para o momento da foto. Nunca vou me esquecer do olhar: um sorriso de canto de boca pervertido, frio, muito cruel, e ao mesmo tempo infantil na pretensão de cavalheirismo. Mas já estou sendo um voyeur também, não estou? Melhor partir.


Parte II de Páscoa no Japão, por Pedro Minet, continua na próxima semana…

Deixe um comentário