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PÁSCOA NO JAPÃO
PARTE II
BELEZA & TRISTEZA
CAPÍTULO I
“It will turn out to be abstract.”
Yasunari Kawabata, Beauty & Sadness
MELTING MOMENT
Trem para Kyoto. Estamos sentados do lado certo para ver o Monte Fuji, um em cada fileira. Quarenta minutos depois de partir ele aparece, dizem. Mas dormimos.
THE OLD CAPITAL
Tenho tomado matchá latte quase toda manhã. A quantidade de lojas e lanchonetes vendendo tudo que você possa imaginar em versão matchá é inacreditável. Sei que é tradição milenar no país, mas a explosão recente de popularidade nas redes sociais certamente deve ser fator. Soft power memético de homens performáticos. Verdadeiros quarteirões de comida verde: sorvetes, biscoitos, barras de proteína. É um pouco absurdo. Aqui em Higashiyama, como em Asakusa, me cercam.
Imaginara essa região como uma espécie de cidade histórica, à la Paraty. Tecnicamente, é. Mas com a quantidade de lojas de souvenir, gente alugando kimonos e placas anunciando “experiências autênticas de ninja”, lembra mais uma zona temática de parque da Disney. O que se vende aqui é a fantasia do Japão antigo, mais “chique” e plácido do que Tóquio. Mas não há só leques e kitanas e artesanato e estética imperial à venda. Há uma loja do Studio Ghibli, outra do Peter Rabbit. A multidão se amontoa; em alguns pontos chega a ser difícil de andar. Muitas escadas. Estamos todos subindo até o Kiyomizu-dera. É lindo. Mas os degraus não acabam. Avisto uma cerimônia começando no alto; um dragão. Não subimos até o fim para ver de perto. Estamos cansados. Fotografamos no jardim, então descemos para comer. Uma família argentina senta na mesa ao lado, no restaurante. A babá veio junto. O bebê começa a chorar, e a mãe acena para que saia com ele. Almoçam. Quando estão fechando a conta, ela ainda não voltou.
PREY MODE
Minha obsessão por cervídeos, para não dizer hiperfoco, é bem documentada. Amigos vêm antecipando minha chegada à cidadezinha de Nara, onde veados reinam como gatos no Egito, desde que anunciei a viagem. Não tenho muito a escrever. Filmo partes com uma JVC antiga. É uma manhã chuvosa e há cerejeiras por toda parte. Alguns dos veados cruzam a rua e percorrem os edifícios ao redor. Bandos atacam uma menina indiana e um menino britânico, tentando apanhar os biscoitos nas mãos. Uns se curvam quando você se curva, outros não. Uns com chifres, outros ainda sem. Placas alertam que é época de acasalamento; os machos estão temperamentais. Loja na estação de trem com souvenires temáticos. Veados-santidades. Há de se pensar bem no que comprar; não quero ser importunado quando voltar pro Rio. Se pudessem ser outra coisa além de bichas no Brasil, o que esses bichos seriam? Parte de mim aprecia a associação; acho poético, até apropriado. Escrevi a fundo sobre num ensaio ano passado. Compro um chaveiro para a bolsa; ainda tenho alguns dias de liberdade.
ARASHI
Saltamos em Osaka na hora do almoço. Temos algumas horas; depois de pagar a conta num restaurante em Naniwa-ku, o destino é Dotenbori. Ver o Glico Man, percorrer os canais e seus arredores, e então Shinsekai, outro bairro próximo.
Osaka é a versão ghetto fabulous de Tóquio. Garotos usam conjuntos Puma e correntes de prata; grupos de garotas com coletes de pelo entornam garrafas de whisky sob a ponte. Animatrônicos enormes nas fachadas de restaurantes em Dotonbori lembram carros alegóricos. Tem algo de Coney Island e de Zona Norte carioca. Shinsekai, o bairrinho “retrô”, cheio de galerias de fliperamas e estandes de tiro a garrafa e barzinhos de karaokê, me remete instantaneamente à Feira de São Cristovão. Escrevo sobre uma foto da mala aberta no quarto: “Rio = cool; Kyoto = chic; Osaka = camp”. Meu amigo Everthon, que morou no Japão quando adolescente, responde, “Osaka é o Rio de Janeiro do Japão, amigo!”. Como intuí.


Muito interessante observar o que as roupas dizem sobre cada cidade em que paramos. Não digo que aqui se vestem “pior” que em Tóquio, mas é possível observar como a moda parece se informar, de longe, pela vanguarda da capital fashion e inevitavelmente chegar em algo diferente. Tudo parece menos polido, mais “sujo”; não sinto que estou num desfile, apesar de muito me cativar. As pessoas parecem mais “normais”, mais espontâneas e folgadas, e ainda assim observando os grupos de jovens há certos códigos únicos que saltam. A paleta é uniformemente mais escura, os cortes mais brandos e musculares; até os trejeitos dos garotos são mais brutos, mais masculinos. Muito sportswear. Me pergunto sobre o sotaque local, como seria se eu conseguisse escutar. Imagino-os soando um pouco como Brando em On the Waterfront, ou Ben Affleck em Good Will Hunting. Mas já estou romantizando demais.
A H&M em frente ao Glico tampou as janelas para que os turistas parassem de subir só para fotografar. Subo mesmo assim, e consigo algo do segundo andar. Minha irmã pesquisa a história do corredor que serviu de muso; lê em voz alta. Assimilo então esqueço. Vago. Visito a Don Quijote local, quase tão grande quanto a de Shibuya, com uma roda-gigante acessível do terceiro piso. Não acesso, nem compro nada de novo. Odeio filas. Minha irmã está carregando o celular no Starbucks mais cheio que já vi em toda a minha vida. Dois andares, e mais alguns andares no prédio com outras lojas; subo para explorar. CDs e revistas e photo cards de grupos idol; um piso para os garotos, outro para as garotas. Passo rápido.
Em Shinsekai, gasto moedas no Kasuga Gorajuko, um arcade retrô. Jogo muita coisa, então fico imerso por uns vinte minutos assistindo a um senhor de sessenta e pouco pilotar um trem num simulador antigo. Minha irmã já está no metrô. É a estação do zoológico; há animais pintados nas paredes que fazem sons quando você passa. Tudo na cidade parece muito físico, muito artesanal. Como parques de diversões antigos. Papelão e gesso e azulejo. É o oposto total dos outdoors de Tóquio, de todo aquela fantasia digital. Um eterno circo, carnival, de bonecos e marionetes; cru e carismático.







A Parte II de Páscoa no Japão, por Pedro Minet, continua na próxima semana…


















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