PÁSCOA NO JAPÃO
PARTE I
PRIMAVERA AZUL
CAPÍTULO III
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VIOLENCE AT NOON

Quase todos os japoneses com quem interajo durante a viagem não sabem falar inglês, mas são muito educados e muito gentis. Não há roubo ou furto, nem mesmo na saída caótica da estação de Shinjuku durante a hora do rush. Só se atravessa na faixa, quando o sinal permite. Boa parte das ruas não têm calçada; ou melhor, a “calçada” é uma linha desenhada no asfalto. Dogville. Não há lixeiras nem lixo nas ruas. Os motoristas de Uber usam luvas brancas, e abrem a porta para você (mais que isso: você não pode tocar na porta). Os vasos sanitários de banheiros públicos abrem automaticamente quando você entra na cabine, e são hipertecnológicos, com um painel de controle cheio de botões para que a experiência seja a mais confortável possível. O assento esquenta se assim desejar, espirra água sob você como uma duchinha ao fim, solta aromatizantes. Até os banheiros masculinos do metrô são impecavelmente limpos. Há muitas pequenas regras: não falar alto no vagão, não comer ou beber andando pelas ruas ou no transporte público, sempre deixar os sapatos do lado de fora antes de entrar no provador (e não tirar foto lá dentro). Espécie de tensão: tudo funciona muito bem, mas me pergunto o que acontece com quem sai minimamente da linha. Já li sobre a polícia daqui, a severidade da vigilância e da ordem. Enquanto me aclimo e absorvo os ritos, estou sempre um pouco ansioso. Fico tenso quando uso o cartão do metrô errado no primeiro dia e tenho que lidar com os guardas. Sob a beleza da disciplina, há sempre a ameaça da brutalidade da punição. Tão chocante quanto a etiqueta dos carros em sempre pararem no sinal, por exemplo, é a violência com que avançam imediatamente assim que abre, mesmo quando alguém (na minha viagem, só estrangeiros) está atravessando. Um americano de regata em Kyoto ergue os ombros e sorri para mostrar que não se importa enquanto todos olham com horror da calçada, mas claramente sente medo. Outro cai com sua câmera no cruzamento de Shibuya (toda vez que o sinal fecha, sem falta, todos correm para se fotografarem e filmarem no meio da faixa), e tenta agarrar, em pânico, o cartão de memória e as lentes enquanto um paredão de carros e ônibus e motos se aproxima. Lembro de uma frase de Breillat sobre gostar do cinema japonês porque a violência nunca é prenunciada. É só violência.
MALICE DOLL
Dia de comprar yaoi. Vamos a Ikebukuro, o bairro das otomes (feminino de otaku). Talvez o leitor já saiba, mas no Japão (e não só, se Heated Rivalry e Brokeback Mountain e Wattpad e Omegaverse servem de evidência no Ocidente), quem desenha e escreve e lê a maioria do homoerotismo são garotas. Há uma escadaria famosa no bairro repleta de desenhos de casais gay apelidada de “Yaoi Dungeon”. Quero uma foto lá. Os degraus levam a uma lojinha subterrânea não tão interessante assim de souvenirs, bottons e pelúcias de personagens variados. Não encontro nenhum que eu reconheça ou goste.
Mais interessante é o terceiro andar da Animate a alguns quarteirões, especialmente dedicado ao gênero em todas as suas especificidades. O prédio é enorme, com ares límpidos de livraria popular de shopping. Então você sobe algumas escadas e toda pornografia gay desenhada que possa imaginar – da mais naïf à explicitamente sadomasoquista; romances inocentes de colégio lado-a-lado com escravidão sexual, estupro, e até uma ala furry – está sendo folheada por famílias e grupos de jovens com a naturalidade de quem vai comprar um frappuccino no Starbucks. Estou buscando coisas específicas, yaoi vintage, algo de Moto Hagio ou Keiko Takemiya, as pioneiras do gênero nos anos 70 e 80. Eles não têm. Considero um artbook de Black Butler, mas é um pouco pesado para a mala, e não sei se quero tanto assim. Sinto que meus dias de Ciel Phantomhive se foram. Decido escolher dois aleatórios, só pelas capas. Nada muito explícito, para não ter problema na alfândega. Tudo é muito barato.
Vamos almoçar por perto. Está chovendo muito. Duas Lolitas ao nosso lado, em silêncio, parecem conversar uma com a outra exclusivamente por mensagem de texto durante a refeição inteira.
Metrô para Akihabara. Se Ikebukuro é terra das otomes, Akihabara é dos otakus. Assim que chegamos, nos deparamos com uma fileira de meninas na calçada dos fliperamas, com roupas curtas de maids, segurando placas e chamando os passantes com vozes esganiçadas. Minha irmã tem seu maior choque cultural até agora; fica horrorizada. Parece achar que são garotas de programa, como as das vitrines de Amsterdam. Não tenho certeza de nada, mas até onde sei e entendo estão ali promovendo os inúmeros maid cafes e girl’s bars da região. Li que geralmente quando as meninas começam a trabalhar nos estabelecimentos, são mandadas para a rua para distribuir panfletos e atrair clientes, quase como um trote/rito de passagem. Ainda chove e faz muito frio. São horas e horas em pé, segurando guarda-chuvas e com as pernas descobertas. Mas é trabalho. Muita gente distribui panfleto na rua no Brasil.
Percebo que quando tiro o celular do bolso para olhar o Google Maps ou fotografar algum prédio ao redor, elas cobrem o rosto. Não parece absurdo imaginar que esses “bares” e “cafés” sirvam de fachada para coisa ou outra. O “job” é sempre um espectro, desde sempre, em qualquer lugar. Sempre difícil definir o que entra ou não na definição de trabalho sexual, ainda mais num país em que você acabou de chegar e não entende a língua. Melhor não tentar. Mas há algo de inegavelmente tabu na visão daquele corredor interminável de garotas em frufru à luz do dia atraindo gamers, como sereias, sob outdoors imensos de decotes de meninas 2D.


Entramos num dos arcades; minha irmã quer jogar Mario Kart. Estou mais interessado no andar de cima: rhythm games. Observo o público por um tempo, então travamos algumas partidas de Dance Dance Revolution. Decidimos nos separar; cada um tem coisas que quer olhar.
Vou à Mandarake da esquina, outro prédio alto cheio de andares de mangá e memorabília. Há um andar de shoujo e BL lá também. Mas a atmosfera é completamente diferente da Animate de Ikebukuro. Se lá tudo era tom frio envidraçado de shopping, “clean”, aqui o ar é pesado e antigo. Os corredores de estantes são apertados, o teto baixo, algo de muito íntimo e um pouco clandestino. Parece quase um antiquário, um subsolo de locadora antiga de Copacabana. O andar dos gays e garotas, para onde vou primeiro, tem as paredes amarelas e um atendente de gênero ambíguo, cabelo curto tingido de branco e lentes azuis nos olhos, que parece um dos bishōnen dos mangás nas prateleiras. Além dele, no balcão, uma moça de máscara de papel e corte Chanel, com ares de professora de educação infantil, organiza recibos. Ela me guia até a coleção completa de Kaze to Ki No Uta, próxima de uma quantidade absurda de edições do shoujo e yaoi mais raro e antigo que você possa imaginar. Fico deslumbrado; quero levar tudo.
Além dos mangás, o andar tem uma área de bonecos. Muitas Blythes, Barbies, Licca-chans, e BJDs montados e desmontados. Cenário de filme de terror para muitos; estou feliz.


Fecho minhas compras lá, mas antes de descer até o balcão do Tax-Free decido me aventurar pelos outros andares. Há o andar do shonen, cheio de Naruto e Evangelion, três andares só de brinquedos (um para brinquedos americanos, um para figures e mechas, outro para itens mais raros de colecionador), e um só para maiores de dezoito. Obviamente, fico curioso, e entro. É o andar de hentai (para o público hétero masculino, especificamente). Paredes vermelhas, cor de Inferno. Abafado. Clima distinto de sex shop. Homens sozinhos – estrangeiros em maioria, mas alguns poucos japoneses – todos cabisbaixos, explorando as prateleiras. Ninguém se cumprimenta nem faz contato visual. Há livros infindáveis, DVDs, CDs e bonecas. Sinto sensações estranhas sendo viado lá, mesmo que os outros não saibam. Talvez ainda mais por não saberem. Me passando por um deles, como um espião. Aquela tensão pastosa de cumplicidade e segredo e perversão e brutalidade masculina. Demonlover as non-fiction. Vejo coisas que preferia não ver. Não fico muito.
THE CUP OF APOLLO
Não há casais gays na rua, mas todos os meninos têm cabelo tingido e pelúcias nas bolsas então é um pouco como se não importasse. Estranho articular, mas é quase como se eu mesmo começasse a esquecer, conforme os dias passam, que sou gay.
Em um brechó em Harajuku, um grupo de meninos vestidos como skatistas, com os trejeitos tipicamente marrentos de garotos adolescentes, estão sentados num sofá tagarelando enquanto um amigo experimenta roupas no provador. Ele sai, vez ou outra, e eles opinam. Noutro brechó em Koenji, dias depois, vejo a mesma dinâmica se repetindo. Em todos os meus anos sendo menino por brechós no Brasil, nunca vi moleques como esses elegendo como programa do dia ir em grupo ajudar um ao outro a escolher jeans. Mas, aqui, a moda parece uma experiência de bonding masculina tão importante quanto o esporte ou a guerra. Sinto que esses meninos morreriam pela beleza.

Daqui umas semanas, em Paris, no porão de uma livraria gay no Marais, encontrarei um tomo de fotografias de Mishima por Kishin Shinoyama. Muitas delas mostram o autor encenando a própria morte, como fez até o fim, envolto em correntes e sujo de sangue falso. Quando finalmente retornar ao Rio, abrirei o Grindr e sentirei uma espécie de choro vindo. Músculos flácidos e tatuagens feias e barbas de minoxidil. Teatro grotesco de daddy issues mal resolvidos e feiura que não se assume. Uma paródia de masculinidade tímida, relutante, “polida”. Sem compromisso ou compreensão básica de que o hipermasculino só funciona pelo desleixo, pelo grotesco, pela repulsa do olhar, do ser olhado. Takeshi Kitano entende isso. Os surfistas de Kamakura entendem isso. Lembrarei deles, de todos os garotos japoneses, da disciplina militar aplicada ao corte de cada camiseta e fio de cabelo, de toda aquela magreza imponente e delicada e divina e infernal que me ajudou a perdoar a minha. Sentirei uma espécie de luto, um luto do olhar, de não poder mais sair na rua e a todo instante me sentir maravilhado. E o mais engraçado, ou talvez só inusitado, é que não desejei nenhum. Talvez quis mais ser? Me vi neles? Não sei. Eu era como Alice no mundo através do espelho, encantado e estranhamente assexuado. Talvez não fosse sustentável a longo prazo. Mas sentirei, para sempre, falta.
GAYJIN
Vou ao bairro gay numa noite de quarta ou quinta; frio nas ruas – o público pula de bar em bar. Estrangeiros em maioria esmagadora. Já ouvi dizer que vários dos bares aqui só aceitam japoneses; sei que há toda uma cena oculta à qual nunca poderia ter acesso. Nem sei se quero. O líder de um grupo de silver daddies britânicos grita para que eu entre com eles numa das baladas quando passo, mas ignoro. Quero perambular. Ninguém anda ali por acaso; me divirto trocando olhares e então partindo, sem concretizar nada, vez após vez, com o trade passante. Torsos sem camisas, outdoors informando sobre HIV, drag queens distribuindo flyers nas portas dos estabelecimentos. Um bloco de concreto modesto chamado “Pride Plaza”. Assim que decido ir embora, vejo meu primeiro casal gay japonês. Dois twinks, rindo, vestindo jaquetas largas que reconheço da coleção do JW Anderson para a Uniqlo. Estão de saída também.
Cruzo Shinjuku até o Golden Gai, onde minha irmã me espera para beber. Um quarteirão de ruas estreitas de bares ainda mais estreitos (muitos só comportam até seis pessoas). Homens nigerianos no portão principal abordam turistas americanos e europeus, tentando guiá-los para um truque ou outro. Muita coisa em Tóquio tem ar de esquema: os prédios intermináveis da Gigo, com suas maquininhas de pegar bonecos e comer dinheiro; os cassinos gigantes de Pachinko; as meninas em fileira pela calçada dos fliperamas de Akihabara, seminuas na chuva. Sou carioca; observo tudo de longe, sem nunca parar por ninguém, como quem sempre sabe onde está e para onde vai. Com uma espécie malandra de respeito.
GUILTY OF ROMANCE
“Tá com quem aí?”
“Por que a pergunta?”
“Quero entender quem tá tirando as fotos e
pagando os jantares. Ou só financiando…
Eu li seu livro.”
END OF SMALL SANCTUARY



Dia de templo. O primeiro, Gotokuji: Templo dos Gatos. Bairro Studio Ghibli, idílico. O santuário é Fatal Frame. Apesar do turismo, é o primeiro que me dá uma sensação de religiosidade real, local. Uma senhora toca um grande sino, deixa um gatinho, ora por um tempo. São tantos gatos espalhados; verdadeiras simpatias. Entidades sob porcelana. Fantasmagoria que convence. Gosto de estar lá. Os jardins são lindos; tudo é marrom-escuro e verde fosco e cor-de-rosa. Chuva. Bicicletas e motocicletas. É bom estar longe do centro.
À tarde, Asakusa. Completo oposto. Tokyo Decadence. A cidade histórica que leva ao santuário é passarela de comércio-camelô. Mas ainda é bonito, de um jeito maculado. Li “A Gangue Escarlate”, de Kawabata; nos anos 20, o bairro era a Montmartre da cidade. Primeira zona de gueixas. Posam para fotos com turistas, agora. Prédios com cara de anos 50, cinemas exibindo Mizoguchi. Muitos restaurantes. Sei que há um parque de diversões. Por alguma razão, fico pouco. A região do templo me deixa com uma má impressão; minha irmã compara com o Pão de Açúcar. Tudo tão cheio e vendido. Terei de explorar mais da próxima vez.






TURNING JAPANESE
Primeira partida de Tóquio, em algumas horas. Estou andando num shopping, com denim nas sacolas. Espelho do banheiro: silhueta frouxa, o corte de cabelo, guarda-chuva na mão. Am I turning Japanese?
Minha irmã acha que sim. Passou o dia inteiro fazendo massagem no hotel. “Um episódio de White Lotus.” Está fazendo comentários ácidos durante o jantar sobre o consumismo japonês. Diz que estou contaminado, ou real e simplesmente sou como eles; não consigo parar de comprar e falar em comprar e pensar em comprar. Ela não leu o diário, senão teria dito “escrever” também. Contagem de verbo?
Estou pensando nesta narração; inevitável exagerar coisa ou outra para efeito. Por que soo tão blasé? (Mas já disseram, ao vivo, que sou…) Como um personagem de Glamorama ou American Psycho ou Coleção de Meninos Mortos ou Superstar. Deve ser endêmico. Motif de obra completa. Não deve caber a mim responder. Why-don’t-we-ask-the-audience. O que acha? Quantas marcas já citei?
Acho que Kyoto pode mesmo ser bom agora. Precisamos descansar. Talvez orar. Hoje é Sexta-Feira Santa.
Páscoa no Japão, por Pedro Minet, continua na próxima semana, com a Parte II…
















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